ago 092012
 

 

 

Todo sábado para Pedro tinha a mesma rotina.

Ele acordava cedo, tomava banho, escolhia uma roupa depois de muita indecisão e então saía ansioso como se fosse a algum evento importante. Os vizinhos que o encontravam no estacionamento do prédio só descobriam que ele ia à feira livre porque o carrinho denunciava.

Fazia quase dois anos que começara a caprichar nos seus preparativos para para ir à feira, e o motivo, é claro, só poderia ser uma mulher: uma morena de olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, que tinha a boca fina e o queixo largo. Sua beleza realmente chamava a atenção de quem olhava além das batatas e cebolas que vendia na barraca do Seu Quincas.

Foi numa das primeiras compras que o paixão começara. Pedro já tinha virado freguês por causa da morena e bastou foi um simples “bom dia” para encher sua alma de alegria e esperança. A partir de então comprar batatas todos os sábados tornou-se obrigatório, ainda que a dispensa estivesse cheia e que ele não achasse os preços da barraca do Seu Quincas tão bons.

Pedro não era um homem feio, tampouco era um exemplo de beleza, mas tinha um certo charme que se vislumbrava depois de alguma convivência. O problema é que ele era tímido e não se permitia tentar uma investida se não tivesse absoluta certeza de que seria correspondido. E a mulher nunca lhe dava tal convicção.

Em certos dias ela o recebia cheia de simpatia, fazia comentários sobre o tempo e seu sorriso largo tornava todo o resto da conversa insignificante. Em outras manhãs ela estava distante e fria, seus olhos verdes eram dissimulados, cheios de mistério, e ele ia embora desnorteado, tentando descobrir se fizera alguma coisa que a desagradou.

A ansiedade matinal dos sábados de Pedro era fruto dessa incerteza de como a encontraria, mas era temperada por outra dúvida, que talvez fosse até maior e mais incômoda: será que ela sabia de sua paixão?

Ele já tinha dado sinais, certamente, mas talvez não tivessem sido suficientes. Ou ela deliberadamente os ignorou, porque não tinha interesse no freguês assíduo. Pedro levava a angústia da dúvida todos os dias para sua cama, mas isso não o impedia de sonhar com dias mais felizes.

Pois foi numa fria manhã de outono que tudo mudou. Pedro chegou até a barraca, escolheu os produtos, deu para que ela pesasse, mas então ouviu a voz do Seu Quincas:

– Aproveite hoje que esta será a última vez que Carolina te venderá as batatas! A moça vai embora!

– Vai embora? C-C-Como assim? – disse Pedro, fixando seus olhos esbugalhados na mulher.

– Ela vai se casar, você não sabia? – Intrometeu-se o dono da barraca – Acredita que ela conheceu o rapaz, o tal Machado, aqui na feira? Um dia ele se declarou e agora eles vão embora juntos pra cidade de Assis.

– Nããoo! Você não pode! Eu amo você – disse Pedro, praticamente sem forças.

Os olhos verdes de Carolina brilharam profundamente antes que ela balbuciasse “não diga isso”, e saísse abruptamente do local.

Quincas, que nada entendera, viu Pedro se afastando da barraca e perguntou:

– Ô moço, e a mercadoria, não vai levar?

– Não – responde aquele que se tornara apenas um fiapo – guarde as batatas para o vencedor.

***

Passaram dois sábados até que Pedro voltasse à feira. Não foi até a barraca do Seu Quincas, mas parou em frente, junto a um pasteleiro, e ali sentou. Se a primeira reação foi de tristeza, ele considerou que agora ela finalmente sabia dos seus sentimentos, e por isso decidiu esperar que ela voltasse.

Pedro decidiu continuar sonhando.

 

 

  One Response to “Sempre aos sábados”

  1. “Ao vencedor, as batatas”?

    Seu “Quincas”?

    O tal “Machado”?

    Cidade de “Assis”?

    Não são migalhas, mas praticamente um pão inteiro!

    😀

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