nov 012011
 
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A luz que vinha das amplas janelas não era capaz de aquecer o recinto, grande demais para o evento. Apenas quatro pessoas estavam no antigo salão: três sentadas atrás de uma mesa de madeira, e o autor do texto, que aguardava de pé a demorada leitura dos documentos.

Já fazia algum tempo que os únicos sons na sala eram de papéis remexidos e do relógio de parede, adiantado em cinco minutos. O Homem de Gravata Borboleta então levantou a vista e começou o interrogatório:

– Sr. Bacaro…

– É Baccaro – corrigiu a pronúncia, dando ênfase à tonalidade da primeira sílaba.

– Se fosse proparoxítona teria acento, mas não vejo nenhum – retrucou o Homem de Gravata Borboleta sem olhar para o interlocutor.

– É um nome italiano, e na Itália quando essas consoantes dobradas…

– Sr. Wagner – interrompeu bruscamente a Mulher de Óculos Redondos – vamos direto ao assunto: o senhor quer fazer o favor de nos explicar aonde queria chegar com isso?

A hostilidade estava finalmente escancarada.

– Isso aí é uma piada que eu vou encaminharaos meus amigos, por email, só isso.

– Uma piada? – perguntou o Homem de Gravata Borboleta?

– Sim, uma piada – disse o autor, já nervoso. É que tem um contexto…

-Hmmm, Uma piada que precisa ser explicada… – disse com cara de desdém a Mulher de Óculos Redondos, interrompendo novamente. O interrogado continuou:

– É que em 2010 eu levei a minha família para passar o final de ano com meus colegas em Franca. Acontece que agora a minha esposa está grávida, então escrevi esse email para dizer a eles que não iria pra lá novamente porque eu não quero correr o risco da minha filha nascer francana.

– Isso é um absurdo! – a mulher ficou de pé para falar – Isso é completamente discriminatório, ofensivo e ultrajante!

– Como? É só uma provocaçãozinha…

– O senhor tem noção de como ofende as mulheres? Quer dizer então que é o marido, o machão, quem determina aonde a família pode ou não pode ir nas férias? Quer dizer então que a mulher grávida é uma incapaz, que não pode fazer aquilo que outras mulheres não-grávidas fazem? – A Mulher de Óculos Redondos quase espumava, e precisou ser contida pelos Homem de Gravata Borboleta, que acrescentou:

– A piada faz referência ao final de ano, que é quando comemoramos as festas natalinas e a confraternização universal. O senhor com essa chamada “piada” está ofendendo o espírito cristão da fraternidade e da indulgência que deve vigorar nesses dias!

– Mas não é nada disso – disse o perplexo autor – eu nem pensei…

– Diga-me uma coisa, senhor Zácaro – questionou o Homem de Bigode Ralo, que até então mantivera-se quieto – Esse seus amigos têm filhos?

– É Baccaro, e sim, eles têm filhos maravilhosos. Por um milagre todas as crianças saíram como as respectivas mães.

-Sr. Ácaro – continuou o inquisidor – o senhor não tem vergonha de fazer uma brincadeira de tão baixo nível com os infantes?

– Mas meus amigos não iriam levar a sério! Já estão acostumados a essetipo de brincadeira, ninguém liga! E é BACCARO, com “bê” de bola!

O Homem de Gravata Borboleta então foi incisivo:

– O senhor tem que entender que o mundo atual não tolera mais essas gracinhas, Sr.Bacabo. Acabou o tempo da piada politicamente incorreta. Isso que o senhor fez pode dar cadeia! Ou o senhor faz as correções ou enviaremos os documentos às autoridades competentes!

– Não, não, a piada nem era tão boa assim! – disse o autor. Quer saber, me devolvam isso pois não vou mandar mais nada.

O autor pegou suas coisas e antes de sair questionou a comissão:

– Os senhores perceberam que criaram um monte de problemas absurdos na piada, mas não disseram nada sobre os francanos, que são justamente aqueles que eu queria sacanear?

– Ora, Sr. Baccaro – respondeu o Homem de Bigode Ralo, agora acertando a pronúncia do nome do autor – Os francanos são muito escrotos, não dá pra defender, né?

 

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