ago 122014
 

 

 

Ontem foi o Dia do Advogado. Essa data costumava ser mais festiva para mim, mesmo antes de passar pelo Exame da Ordem.

Durante a faculdade o 11 de agosto era comemorado com o Dia do Pendura. Geralmente o tradicional calote era aceito pelos donos dos estabelecimentos, mas às vezes dava errado e virava caso de polícia, como quando eu e o Helton fomos jantar uma pizza de camarão em um restaurante próximo à Praça do Itaú.

Fomos levados até a delegacia em carro de polícia, com o giroflex ligado, e achamos aquilo o máximo. O delegado também achava graça, mas tinha que disfarçar e nos dizia “paguem o homem, meninos!”.

Acabamos pagando apenas os 10% do garçom, pois fomos muito bem atendidos pelos funcionários – até o momento que anunciamos o pendura, claro.

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Depois que comecei a trabalhar as festas do dia 11 em Jacareí aconteciam na Casa do Advogado, com churrascos que iam até altas horas. Eram eventos animados, nos quais praticamente todos participavam.

Com o tempo esses churrascos foram minguando, muito em razão da desunião da própria classe. Hoje conheço poucos advogados novos e a Subsecção tem se demonstrado mais preocupada em servir de palanque para alguns do que unir todos colegas.

Mas não importa. Como mostra a foto abaixo, que não está muito boa, tenho muitos amigos com quem vale a pena comemorar o nosso dia.

 

almoço dia dos advogados

 

E dessa vez não penduramos a conta.

 

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fev 252014
 

 

delegacia

 

Já na entrada tive o anúncio de que a noite não seria fácil. O policial militar disse que eu não poderia falar com meu cliente, eu insisti que iria, ele retrucou que eu não podia e eu o deixei falando sozinho, desafiando-o a me impedir. Conversei com o rapaz rapidamente e saí ouvindo os resmungos do PM enquanto todos os demais olhavam em silêncio.

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Fui encontrar com a família do rapaz na entrada, e enquanto esperávamos o delegado chegar o roteiro da noite se montava: um rapaz de cabelos amarelos e cara de Denis O Pimentinha foi trazido porque estaria portanto pinos de cocaína junto com um amigo. Um policial entrou com três tijolos – paralelepípedos, na verdade – de maconha nas mãos. Uma mocinha bonitinha veio reclamar que roubaram a sua bolsa.

O pai do Pimentinha começou a puxar conversa, explicando que o filho é bom porém anda com más companhias. Quase sempre isso é verdade, mas pode ser que valha também para o pai do outro rapaz que foi preso.

denis pimentinha

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O prédio do 1º DP de Jacareí comporta também a cadeia pública, e é igual a muitos outros que foram construídos entre os anos 60 e 70 no interior do Estado. Sua história, porém, é particularmente trágica. Em 1981 houve uma rebelião em que sete pessoas morreram depois de um intenso tiroteio, e entre as vítimas estava Franz de Castro Hollzwarth, um advogado que tentava negociar com os amotinados e se ofereceu para tomar o lugar de um PM que tinha sido feito refém.

Além de dar seu nome para uma rua, para a sala da OAB no fórum de Jacareí, para o próprio prédio da delegacia e para um prêmio concedido pela OAB/SP dedicado aos defensores dos direitos humanos, corre na Igreja Católica um processo de canonização de Franz de Castro.

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A PM chegou com o dono dos paralelepípedos de maconha, mas parecia estar trazendo uma piada pronta: o rapaz tinha um visual jamaicano, com dreadlocks no cabelo que iam até a cintura, e vestia camiseta branca estampada com o rosto do Bob Marley.

Era a apresentação do puro estereótipo do maconheiro, algo que talvez possa ao final até ajudá-lo. Só mesmo um entusiasta da filosofia rastafári poderia dizer que aqueles quatro quilos de erva prensada seriam para consumo próprio.

bob marley

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Mesmo depois da chegada do delegado a noite se arrastava. Eram apenas ele e dois escrivães para atender todos os casos, e mais gente foi chegando ao plantão. Um cara que teve a motocicleta roubada, uns moleques que pichavam um prédio público, um homem cuja sogra morreu no seu carro enquanto iam para o hospital.

Eu e meu cliente esperávamos porque a equipe de perícia teria saído para atender um chamado de atropelamento em Paraibuna, a cerca de 70 km de distância. Isso atrasou o andamento das outras ocorrências, e em pouco tempo o prédio estava cheio de cidadãos, presos e policiais militares. 

homeland

Na TV do saguão passava o último episódio da segunda temporada da boa série Homeland, mas assistir tiroteios no meio de tanta gente armada, e em um local com tristes antecedentes, não pareceu muito adequado.

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Os peritos chegaram, meu cliente foi liberado, e enquanto saíamos chegou uma moça, ou rapaz, não sei ainda, dizendo que foi vítima de roubo e pedindo ajuda aos policiais militares que estavam no saguão. Muito nervoso, ou nervosa, chorava ao tentar descrever o ladrão, e se perdia em prantos ao falar da mochila que foi levada.

Havia algo de patético em ver uma adulta, ou adulto, chorando e implorando por causa de uma mochila, mas ao mesmo tempo a cena era comovente. Como julgar as necessidades de alguém? Como avaliar o comportamento do outra pessoa em um momento de estresse?  Será que eu também não pareci patético ao enfrentar o policial militar quando cheguei?

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 Eram quase 3h da manhã quando cheguei em casa.

 

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