fev 032016
 

 

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Ebenélcio Scrote acordou no meio da madrugada e procurou pelo telefone celular para saber as horas. Ficou surpreso ao ver que o aparelho marcava 01:00, pois quando tinha ido se deitar já se passavam das três da manhã. Era impossível que tivesse dormido até o começo da tarde, ou que tivesse atravessado um dia todo dormindo, então se levantou e foi olhar pela janela, acreditando que seu telefone tivesse algum defeito. Antes mexer na cortina, porém, viu um vulto parado próximo à porta:

– Quem é você?

– Eu sou Balaco Baco.

– Quem?

– Eu sou um dos fantasmas dos carnavais passados.

Enquanto o espectro falava, lantejoulas caíam pelo chão. Ebenélcio manteve-se em silêncio, descrente da cena que se apresentava.

– Você já foi animado, Ebenélcio. Você se divertia no carnaval, aproveitava a folia, agora só quer saber de cama e computador. Venha comigo visitar o seu tempo de farra para reviver aquela pessoa alegre que havia dentro de você.

Mesmo ainda sem acreditar no que acontecia, Ebenélcio deu a mão e, no mesmo instante, eles se encontravam no meio de um salão enfeitado com serpentinas e com o chão coberto de confetes. Ebenélcio viu um adolescente usando camiseta branca, uma grande fralda de pano sobre o calção, com uma chupeta pendurada no pescoço e carregando uma mamadeira, que era sorvida continuamente pelo jovem.

– Aquele bebezão pulando como um louco é você, Ebenélcio, se lembra disso?

– Sim!

– O que tinha naquela mamadeira?

– Pinga com limão.

– Você não era muito jovem para beber?

– Sim, aquela foi a primeira vez que tomei um porre. Eu não me lembro direito do que aconteceu, só me recordo que beijei uma linda mulher e que no outro dia eu tinha comigo uma flor que ele me deu!

– E quem é aquela moça vestida de diaba que está conversando agora com você?

– Ah, aquela é a Blonda. Ela não está vestida de diaba não, ela está sem fantasia nenhuma, na verdade. Essa cara de exu era dela mesma, coitada.

– Você bebeu demais naquela noite! Veja, você está agora brigando com a menina! Não, não! Vocês não estão brigando, vocês estão se agarrando… Nossa! Que beijo! Que amasso!

– Isso está errado, não foi assim! Eu fiquei com uma linda mulher naquela noite! Ela até me deu uma flor…

– Seria aquela flor de jaca que ela tirou da lapela e está te entregando agora?

– Meu Deus, a Blonda não! A BLONDA NÃO!

***

Ebenélcio acordou assustado, com o coração batendo em ritmo acelerado, e olhou para o celular que marcava 02:00. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo percebeu que no quarto havia mais alguém.

– Boa noite, Ebenélcio. Eu sou Teleco Teco, outro fantasma dos carnavais passados.

– Estou sonhando dentro de um sonho? O que está acontecendo?

– Está acontecendo que você tem que recuperar o espírito da alegria do carnaval, e por isso vou te levar a outro momento em que você foi feliz no meio da folia.

– Bom, pior que o último não pode ser…

O espírito, que usava uma máscara de pierrot, deu a mão a Ebenélcio e imediatamente ambos se encontravam no meio de uma rua de pedras, muito estreita. Era possível ouvir uma marchinha carnavalesca, mas o som vinha de longe. Já amanhecia, os foliões já tinham passado, e não havia mais ninguém nas proximidades.

– Cadê você, Ebenélcio? No meu roteiro você tinha aproveitado a noite com uma tal de Natacha.

– Esse foi meu carnaval em Ouro Preto… Eu me lembro pouco desses dias, mas sei que passei por estas ruas… Tinha uma barbearia e… Olha, veja lá, estou ali na esquina…

– Aonde?

– No chão…

– Aquele esparramado na sarjeta é você?

– Sim…

– O que é aquilo que você está abraçando? Ah, é uma garrafa de vodca! Vodca Natasha…  Então “Natacha” é “Natasha”, que é uma marca da bebida… Que coisa, Ebenélcio… Mas aqui nas anotações consta que você beijou alguém!

– Eu me lembro dos lábios quentes tocando os meus!

– Lábios ou focinho? Pois veja, tem um cachorro lambendo sua boca agora..

– Meu Deus, um cachorro não! CACHORRO NÃO!

***

Ebenélcio quase caiu da cama ao acordar. Suava tanto que seu pijama estava todo molhado. Uma brisa fria foi sentida, e ele já sabia o que isso significava. O relógio marcava 3:00.

– Boa noite, Ebenélcio. Eu sou Ziri Guidum, um…

– … dos fantasmas dos carnavais passados – completou o homem – Já sei o quem você é e o que veio fazer aqui.

– Venha comigo então, Ebenélcio. Vou levar você para a lembrança do carnaval mais feliz da sua vida.

Dessa vez o homem relutou. As duas lembranças anteriores não foram nada boas, e ele teve medo do que poderia encontrar no seu passado. Percebendo isso o fantasma assobiou como uma cuíca e disse: “Vamos ao Rio de Janeiro”. Ebenélcio se animou ao ouvir o nome da cidade maravilhosa e apertou a mão do espírito, fazendo surgir ao redor dos dois uma quadra de escola de samba. O som da bateria era alto, belas mulheres sambavam e havia alegria por todos os lados.

– Esse carnaval foi ótimo – disse Ebenélcio, aos gritos – Eu ia curtir o samba em outra escola, mas um funcionário do hotel me deu a dica dessa quadra. À noite conheci uma mulata maravilhosa, vestida de fantasia de Mulher Gato, e nós tivemos momentos muito quentes encostados no muro do quarteirão de baixo!

– Estou vendo… Vocês estavam bem animados…

– Foi uma noite maravilhosa, inesquecível. Durante o resto do carnaval, e nas outras vezes que fui ao Rio, procurei por ela mas nunca consegui achá-la. Nosso encontro foi breve, mas muito intenso… Não consumamos o ato, se é que você me entende, mas aquela Mulher Gato jamais saiu da minha cabeça.

– Entendi sim o que você disse. Não compreendi o que ela está fazendo agora… Vocês se despediram, ela foi embora, mas parou pra fazer xixi, é isso?

– Não, não é isso não. Ela está de pé… – disse um confuso Ebenélcio.

– A sua Mulher Gato deixou cair algo, vejamos: hmmm, é um crachá do Hotel F. Caneca.

– Esse é o hotel em que me hospedei e… Ah, não! O FUNCIONÁRIO NÃO! O FUNCIONÁRIO NÃO!

***

Ebenélcio estava no chão. Tinha caído da cama e acordou desesperado. O celular marcava 4:00, e foi com medo e que ele se virou para a porta do quarto, aonde estavam os três fantasmas que o visitaram antes.

– Não sei que sonho maluco é isso, mas saiam daqui, saiam da minha cabeça! Vocês são um sonho apenas!

– Errado, Ebenélcio – disse Zirigui Dum

– Não somos um sonho – cuicou Balaco Baco.

– Nós somos reais – repicou Teleco Teco – Todavia, pode ficar tranquilo. Nós vamos embora e nunca mais vamos voltar. É melhor você esquecer do carnaval e ficar em casa mesmo, pois até Momo acha que você já fez besteira demais nessa vida.

***

Até hoje Ebenélcio não sabe se foi um sonho ou se foi mesmo visitado por fantasmas. Ele passa seus carnavais em casa, isolado da folia e dos amigos. Às vezes sente falta da animação e senta-se, melancólico em frente aos desfiles na TV, suspirando com um cartão de um hotel carioca em suas mãos.

 

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jan 262016
 

 

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“Tempo é relativo”, me diz o Óbvio, sentado ao meu lado enquanto escrevo estas linhas.

Já se passaram muitos dias desde a última postagem e ele está aflito, esperando ser alimentado. Tenho me contido durante esse período para não me render ao seu chamado, mesmo que seja tentador e às vezes coberto de razão.

Em relação à relatividade do tempo, por exemplo, ele está certo: ontem fez 21 anos desde aquele show do Lulu Santos do Ibirapuera mas parece que foi… ontem. Minhas férias inteiras duraram menos que as horas que sentei em frente ao computador depois que voltei ao trabalho.

Mas tenho lutado para não me render ao Óbvio e seu sorriso vazio de satisfação. Por mais que ele continue a me espreitar a cada bate-papo, a cada mensagem trocada, a cada olhada no Facebook, aguardando pacientemente minha resposta a um comentário qualquer.

Essa minha resistência, todavia, tem causado o hiato nas postagens e algum ressentimento. O dia mais emblemático foi quando David Bowie morreu.

Assim que soube da morte do cantor o Óbvio ficou ululante. Abriu o notebook e leu cada comentário sobre a genialidade artista rindo de si mesmo, enquanto aguardava a minha participação no rol de homenagens sem fim. Ele sabia que sou fã do Bowie e que isso certamente renderia um post consagrador a ele (consagrador ao Óbvio, quero dizer).

Mas minha decisão de não escrever por entender que não haveria algo original para postar foi um golpe duro, que o deixou decepcionado comigo. Depois de tantos anos enriquecendo suas fileiras, o Óbvio se sentiu traído pela minha atitude.

Aos poucos, porém, vejo que ele está se recobrando e se sentindo mais forte, mais confiante. Ambos sabemos o porquê. É certo que, por mais que eu tente, cedo ou tarde não resistirei aos seus apelos e voltarei a colaborar com ele.

Quando digo “com ele” me refiro ao Óbvio, claro.

 

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nov 192015
 

 

 

Tijolos

 

 

O advogado recebeu o telefonema tarde da noite e se dirigiu para a delegacia:

– Boa noite, Dr. Coimbra. O que está acontecendo?

– Boa noite. Dr. Gregório! Pode ser algo grave, então resolvi chamá-lo com urgência. Eu cheguei agora à pouco e encontrei o suspeito dentro da carceragem, com a roupa encharcada de água e o algo que parece ser sangue. Ele disse que tem algo para contar, mas que só falaria se o senhor viesse representá-lo.

– Qual o nome dele, doutor?

– Ele não disse. Só ficou repetindo que queria a sua presença. Eu não estava aqui quando o prenderam, e o único escrivão do plantão saiu para lanchar sem me falar nada.

– Deixe-me então conversar com esse meu cliente misterioso. Peço apenas que nos deixe a sós.

O delegado apontou o já conhecido caminho entre pilhas de inquéritos, antigos móveis de madeira e computadores de gerações passadas. Nos fundos do imóvel havia uma pequena sala fechada com grades de aço. O homem lá dentro esperava sentado em um banco de alvenaria, com a cabeça abaixada, e se levantou enquanto o advogado dizia:

– Boa noite! Sou eu, Gregório, advogado, em que… Você!?

– Boa noite, Gregório. Finalmente nos falamos.

O advogado não esperava encontrar aquele homem, muito menos naquele estado, com a roupa e os cabelos molhados e a camisa suja de sangue e barro.

– O que aconteceu? Por que você me chamou aqui?

– Conheço a sua fama, doutor. Aliás, as suas famas… E pelo que vejo, sabe também quem sou eu.

– Claro que sei quem você é!

– O importante é que eu preciso dos seus conhecimentos, e eu sei que pode ajudar.

– O que você fez?

– Enquanto não chegava eu estava aqui pensando justamente em tudo o que fiz na vida. Me lembrei de quando era pequeno e caçava passarinhos pelas estradas de terra. Era tudo tão mais simples quando eu era criança… Eu tinha uma mira boa, acertava aqueles passarinhos com minha espingardinha de chumbo até que um dia comecei a ter remorso e passei a errar tiros fáceis.

– Do que você está falando?

– Estou falando que o remorso atrapalhou a minha mira, doutor. Mas acho que falar de remorso é algo estranho para um advogado… Ainda mais para você…

– Cadê a Amélia?

– Sabia que iria perguntar dela… Sei de muitas coisas, na verdade… Sei que você nunca parou de pensar nela, não é mesmo?

– O que fez com a Amélia?

– Eu a amo, sabia? Mesmo agora. Mesmo depois de tudo. Eu era louco por ela.

– Eu sei que você é um desequilibrado!

– Deve doer então que ela tenha me escolhido, não é?

O advogado respirou profundamente antes de continuar a conversa:

– Cadê a Amélia?

– A Amélia mudou, sabia? Coincidentemente, isso aconteceu depois que você voltou para a cidade. As pessoas não enxergam, mas eu sei que nem tudo fica do mesmo jeito para sempre. Ninguém se dá conta que o tijolo, antes de ser tijolo, era barro.

– Que merda é essa que você está falando?

O advogado se aproximou da grade, mas o suspeito não se moveu e disse com os dentes cerrados:

– Eu sempre te odiei!

– Você ficou com Amélia. Vocês se casaram. Por que então que me odeia, eu que deveria…

– Sim, eu me casei com ela, ela me escolheu… Mas porque VOCÊ não quis! Porque você não teve coragem de largar tudo pra ficar com ela, como EU fiz!

– Eu não te devo explicações.

– Você é um filho da puta, doutor. Tão filho da puta que fez ela continuar a pensar em você mesmo estando comigo esses anos todos.

– Eu não fiz nada, você que é doente!

– Sou, é? Pois eu sei que vocês se falavam! Então confesse! Confesse que você se encontrou com ela! Confesse que vocês estavam saindo! DIGA QUE ELA ESTAVA ME TRAINDO COM VOCÊ!

– Eu não vou dizer nada disso, seu doente desgraçado! Você quer o quê, que eu justifique seus atos? Eu não tenho nada para tratar contigo, seu demente! Vou chamar o delegado aqui e você que se acerte com ele!

– Não! Não! Eu preciso de você! Eu nunca imaginei que iria parar no fundo do poço, muito menos que você iria me ajudar a sair, mas tem que ser você!

– Você a matou, seu filho da puta? Você matou Amélia?

– Eu ainda a amo, e tudo o que fiz até então foi por esse sentimento. E agora que não tenho mais salvação, o que sinto é tão forte que me faz chamar o velho amor para ajudá-la…

O homem encarcerado abaixou a cabeça novamente:

– De tudo o que senti… De toda a paixão, de todo ódio, ciúme, remorso… Tudo o que ficou foi confusão… E a ironia de juntá-los novamente…

– Cadê ela, porra? Diga aonde ela está!

– Dizem que você é inteligente, Gregório. Que é perspicaz. Eu já dei todas as dicas de onde encontrá-la. Você tem que fazer a sua parte também.

– Dicas? Que dicas? Você ficou falando um monte de bobagens sobre passarinhos e…

O advogado parou e pensou nas palavras que o suspeito dissera, e então saiu correndo pela delegacia. O delegado estava na calçada fumando, e ele se assustou ao ver Gregório tão afobado, chamando-o para ir ao carro:

– Vamos, vamos, rápido, ela está em perigo!

– Mas que porra…

– Eu te explico no caminho, vamos rápido, talvez possamos salvá-la!

O delegado entrou correndo na delegacia, pegou as chaves da viatura e ao sair deu de cara com o escrivão, que voltava da pausa para o lanche.

– Homero, entre em contato com o resto de pessoal e coloque-os em alerta. Eu vou dar mais notícias pelo rádio do carro. Não deixe o preso da carceragem sair de jeito nenhum!

– Mas que pr…

Não foi possível ouvir a pergunta do escrivão, o delegado já estava entrando no carro e saindo em disparada antes que a frase terminasse. Com o giroflex ligado, a viatura correu pelas ruas da pequena cidade chamando a atenção dos poucos que transitavam àquela hora. Em instantes, já tinha se distanciado do centro e tomado a via de terra conhecida como Estrada dos Pássaros, em direção à velha olaria.

A porteira estava aberta e o carro entrou sacolejando, até parar próximo a um automóvel parado ao lado de um barracão abandonado. Os faróis da viatura iluminavam um poço, a cerca de trinta metros de distância, e havia alguém sentado na borda.

Gregório parou de correr quando viu Amélia. Ela estava chorando, nas mãos havia uma arma:

– Eu não queria, ele que tentou… Eu lutei…

O choro ficou mais forte e ela parou de falar ao abraçar o velho conhecido.

O delegado usou uma lanterna para procurar pelos arredores, até que chegou no poço. Ao ver o corpo do homem mergulhado na água, sentiu um frio na espinha.

Aquela seria a ocorrência mais difícil para relatar em toda sua carreira.

 

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out 072015
 

 

 

mario baccaro

 

 

Durante a vida toda Mario teve que explicar que a pronúncia de seu nome era bácaro, e não bacáro, como habitualmente as pessoas falavam. Ele dizia que embora a ortografia da língua portuguesa exigisse um acento nas palavras proparoxítonas, Baccaro é um nome italiano herdado do seu pai, Pedro, um alfaiate que imigrou para o Brasil no começo do século XX.

Pedro se estabeleceu em Jacareí e se casou com a bela Maria Emília, que morreu ainda jovem após gerar cinco filhos, todos homens. Mario, nascido em 15 de abril de 1922, tinha cinco anos de idade quando a mãe faleceu, e junto com os irmãos foi criado apenas por seu pai, que se recusou a casar novamente por jamais se esquecer de sua mulher.

A infância passada na casa na rua XV de Novembro foi difícil, mas os Baccaro formavam uma família feliz e unida. Entre as brincadeiras e os estudos, Mario foi acolhido aos 12 anos pelo Tiro de Guerra como mascote, certamente sem suspeitar que um dia pegaria em armas de verdade para combater um inimigo longe de sua casa.

Mario foi aluno da primeira turma da Escola Agrícola de Jacareí, e estudava para ser agricultor em Santo Antônio do Pinhal quando recebeu a convocação para se juntar ao 6º Batalhão de Infantaria do Exército, situado em Caçapava. O homem da lavoura, que gostava de jogar “bola ao cesto” e que tocava pandeiro no conjunto Fila Bóia, foi ser soldado para guerrear na Europa.

De Caçapava foi para o Rio de Janeiro, e de lá partiu para a Itália, num navio que corria o constante risco de ser afundado pelo inimigo e no qual faltavamm alimentos e até mesmo água doce.

Dentro da embarcação os pracinhas cantavam a Canção do Expedicionário, que dizia: “Por mais terras que eu percorra/Não permita Deus que eu morra/ Sem que eu volte para lá”. Pois Mario, além de querer voltar à terra do biscoito, desejava também retornar para Alzira, mulher que se tornaria sua esposa pouco após o fim da guerra e com quem viveria até os fins dos seus dias.

Na Itália Mário teve que enfrentar o rigor do inverno e a valentia dos alemães. Todavia, se o frio era algo novo para o alguém que nunca havia deixado o Brasil, em termos de bravura o jacareiense nada deixava a dever aos tedescos. Sua conduta durante a guerra foi tão destacada que foi condecorado por seus atos e o levou a ser citado no livro Histórias da História do Brasil, que conta como o franzino soldado Baccaro, “que poderia estar namorando em um jardim da cidade de Jacareí”, fez correr mais de 40 soldados da temida divisão SS.

As histórias de companheirismo, sacrifício, glórias e perdas marcaram o pracinha por toda sua vida. Mario sempre teve orgulho dos amigos que fez no quartel, mas jamais se gabou por seus atos heroicos. Ele se considerava um homem do campo, e não um guerreiro, e por isso os causos da roça lhes causavam mais felicidade que as memórias da guerra.

Ao retornar ao Brasil, Mario tentou se estabelecer na agricultura, mas Jacareí já começara a transformar-se para deixar de ser uma cidade agrícola. Tornou-se então servidor público federal, e assumiu um cargo nos Correios, tendo ocupado postos em Santa Isabel, Pedra Bela e em na sua terra natal, aonde se aposentou.

Do casamento com Alzira Fontes teve quatro filhos: Nelson, Mario, Terezinha e Dagoberto, e estes lhes deram sete netos: Carlos Frederico, Wagner, Roberto, Ana Alzira, Carolina, Mariana, Mariozinho, além de Marcos, que foi criado como se neto fosse.

No final dos anos setenta construiu a primeira casa da Avenida Pensilvânia, no Jardim Flórida, e lá morou até 1999, ano em que faleceu.

A nomeação de uma via em homenagem ao Exp. Mario Baccaro é uma justa medida desta cidade em favor de um de seus filhos ilustres. Certamente as pessoas que passarão pela rua mencionarão o sobrenome Baccaro de forma equivocada, mas isso não importa. O que é relevante de verdade é que saibam que o homenageado foi um pracinha heroico, um servidor público destacado, um agricultor por vocação e um pai e avô dedicado e carinhoso, que sempre teve orgulho de suas raízes jacareienses.

 

***

 

Mario Baccaro, meu avô, agora empresta seu nome para uma rua de Jacareí.

 

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set 172015
 

 

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Deitado em sua cama, ele lamentava a presença de sua constante companheira, a insônia. Os olhos abertos, fixos na lâmpada apagada do quarto, sinalizavam sua desistência de tentar dormir novamente.

O que lhe restava era organizar os pensamentos, que passavam pelo trabalho, lembravam as contas em atraso, pulavam para os problemas com o carro, mas sempre terminavam nela.

Ou melhor, na falta dela.

Há tempos não a via. Pelo calendário talvez não fosse muito, mas era mais que o suficiente. “Não existe medida para o vazio”, filosofava em silêncio.

Incomodava-o que, mesmo apagada, a lâmpada fluorescente às vezes piscava. O balançar da cortina graças à brisa que passava pela janela também era irritante. Parecia que tudo no quarto estava inquieto, que nada descansava naquele lugar.

Foi quando decidiu pensar somente nela. Certamente a mulher estaria dormindo, então, quem sabe, se ele concentrasse seus pensamentos poderia influenciar os sonhos que ela possivelmente estivesse tendo.

Riu da própria idiotice, mas aquela não foi a primeira torta do dia, nem a última da vida.

Passou a imaginar que estavam juntos no alto de um prédio, com a cidade inteira brilhando aos seus pés. Da rua, os sons do carro e o cheiro de gasolina. Ela vestia apenas dois brincos de pedras verdes; ele trazia em suas mãos dois copos de espumante. Lentamente as os prédios foram se apagando até só restaram as estrelas para iluminá-los.

Sentia que a vida poderia acabar pois não haveria felicidade maior a ser alcançada que aquela de estar ali, abraçado novamente com ela. Não havia mais movimento, o tempo deixou de correr e a paz era infinita até que despertador disparou a tocar.

Acordou surpreso. Já era hora de levantar. O patrão nosso de cada dia não deixaria de cobrar sua cota, mas isso não o inquietava mais. Estava pronto e disposto para viver a realidade como quer que ela se apresentasse.

Talvez ele nunca saiba o que ela sonhou, mas o que lhe importava é que agora sabia para onde levar seus pensamentos quando a noite chegasse.

 

 

 

ago 212015
 

 

 

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A senhora senta na cadeira de madeira disposta em frente à pequena mesa redonda. Uma toalha de veludo roxo cobre o móvel, dando àquele ambiente escuro um tom ainda mais lúgubre. No centro da mesa, em vez da esperada bola de cristal, a mulher se depara com baú de madeira, iluminado por um tênue facho de luz que vem diretamente do teto.

Ela espera por alguns poucos minutos, mas já fica impaciente. “Não posso perder tempo”, pensa ela, que vangloria por ser uma mulher de ação apesar dos muitos anos já vividos.

Enquanto ela morde os lábios inferiores, praticando um cacoete que não é bonito de se ver, entra o homem que dizem ser detentor do poder de ver o presente e o futuro de forma especial. A figura, todavia, não é o que ela esperava: em vez de roupas cintilantes e túnica, El Gigio veste calça jeans e uma camiseta branca com a estampa do Naranjito e a inscrição “España 82” na altura do peito.

– Boa tarde, o que a senhora quer saber do futuro?

– Boa tarde, senhor El Gigio. O senhor foi muito bem recomendado por pessoas distintas e importantes, por isso eu quero que o senhor me diga quais os caminhos que temos que traçar para mudar o Brasil.

– A senhora está preocupada com o país e quer fazer algo para mudar, certo?

– Isso mesmo! Eu não quero que continue essa ditadura comunista bolivariana em que já estamos vivendo!

– Como?

– Esses comunistas que querem transformar o Brasil numa nova Cuba têm que ser detidos! É um absurdo que nosso verde amarelo esteja se transformando no vermelho com foice e martelo!

– Hmmm…

– E essa bolsa-família está quebrando o Brasil! Essa Dilma – que eu nem sei se é brasileira mesmo, já ouvi dizer que ela é búlgara – não representa o país!

– Bom, ela venceu as eleições…

– Ela comprou os nordestinos! E o pior, está arregimentando os pobres, os cubanos e os haitianos pra formar um exército! Bem que o Olavo de Carvalho avisou! É hora do impeachment!

– Olavo, é? Sei…

– O que eu quero saber então, senhor El Gigio, é sobre quando que os militares vão intervir pra nos salvar! No tempo deles não tinha roubalheira, as cidades eram seguras, todo mundo tinha emprego e a educação era de qualidade!

– É?

– O Brasil precisa de alguém de liderança, precisa do Bolsonaro! Ele sim representa os valores morais e a decência da família brasileira!

– Compreendo… Bom, eu posso ajudar a senhora!

El Gigio colocou as mãos sobre o baú de madeira e ficou parado por alguns instantes, com os olhos fechados. A mulher observava com atenção mas já esperava por aquele momento. Já era de seu conhecimento o pequeno ritual que o vidente realizava antes de abrir a caixa e dela tirar a faixa branca com o desenho do Terceiro Olho, que ele usava para ver o futuro.

Quando El Gigio abriu o baú, todavia, não retirou a mítica faixa mas sim uma pilha de livros que entregou nas mãos da mulher:

– O que é isso? – perguntou ela.

– São livros de História – respondeu ele – O que a senhora precisa não é saber sobre o futuro, mas sim aprender mais sobre o passado…

 

***

 

Outras histórias do El Gigio aqui.

 

jul 282015
 

 

Fio terra

 

 

O contrarregra chamou por José, que esperava ansioso em uma sala pequena e improvisada. O desassossego era ainda maior quando ele chegou, por isso ter aceitado as duas doses de uísque a que produção lhe oferecera pareceu ter sido uma boa ideia.

O programa era ao vivo, e por mais conhecimento que José tivesse do assunto, era natural o nervosismo pela estreia na televisão. Ele até se arrependera de ter avisado a família e os amigos da entrevista, mas um pouco da sua confiança se restaurou com a bebida e ele se sentia pronto para o desafio.

O estúdio era menor do que ele imaginava. Duas poltronas estavam postas num canto do cenário. A apresentadora conversava com alguém da produção enquanto em uma tela se viam os comerciais. O contrarregra instalou José numa das poltronas, prendeu o microfone em sua roupa, deu algumas instruções e saiu para que se preparassem para a volta do intervalo. O entrevistado ficou tenso novamente e pensou em pedir mais uma dose, mas já não havia mais tempo. A vinheta começou, alguém contou 3, 2, 1 e…

– Estamos de volta com o nosso Ainda é Cedo Nesta Tarde, e agora nós vamos tratar de um assunto muito polêmico, que tenho certeza que a minha amiga que está aí nos assistindo tem muita curiosidade em desvendar. O assunto é tabu, mas com a gente não tem isso não, então trouxemos aqui um convidado especial para falar da sua experiência. Mas antes, a Giovana tem um recadinho do nosso patrocinador.

José ficou intrigado com aquela introdução, mas também já havia parecido estranho quando a produção o abordou na rua e o convidou para tratar do assunto em um programa de variedades. Não sabia como sua experiência como engenheiro mecânico especializado em prensagem eletrostática poderia despertar o interesse de donas de casa que gostavam de saber de fofocas, mas achou que um convite para aparecer na televisão nunca poderia ser recusado.

Depois que a bela Giovana terminou de apresentar o revolucionário chá de casca de tartaruga azul e seus benefícios para a pele e a libido, a apresentadora agradeceu e começou a falar, mas José estava distraído com a movimentação do estúdio e só ouviu a pergunta:

– Então, José, você tem bastante experiência?

– Bem, errr…. Bom, eu tenho bastante experiência nesse assunto, né? Tenho conhecimento teórico e prático bem aprofundado.

– Hmmm. Aprofundado… –  A apresentadora deu um leve sorriso – Então você é um entusiasta?

– Bem, eu sou entusiasmado sim e me esforço para fazer bem a minha parte, né?

– E você já fazia antes do casamento?

– Hein? – José estranhou a pergunta.

– Você já fazia isso antes de casar?

– Sim, sim, claro… Eu tenho uns dez anos de experiência em…

– E a sua esposa? – Interrompeu a entrevistadora – Ela não estranhou, nunca falou nada?

– Ôchi, e por que ela iria falar algo?

– Nossa, que bacana isso de vocês terem a cabeça aberta, mas convenhamos que não é comum… Poucas pessoas admitem que fazem isso, principalmente os homens!

– Poucos fazem porque tem que ter o jeito certo de fazer, é preciso dominar a técnica, tem que ter jeito, senão a pessoa pode até se machucar. Não é qualquer um que vai se enfiando…

– Ah, com certeza! Se for se enfiando sem qualquer jeito a pessoa se machuca mesmo… Hahahaha… Ah, me desculpe, eu não resisti, me desculpe…

José não entendeu a piada mas tentou seguir em frente:

– A pressão que faz é muita, por isso eu não recomendo a quem não estiver familiarizado com o processo. Pode até ser perigoso, se não for realizado com cautela e paciência.

– Claro, claro! Então o senhor aprova o chamado fio terra?

– Ah? Sim, evidente, é fundamental! Não dá pra ficar sem!

– Não?

– Não! Tem sempre uma descarga elétrica, né?

– Tem?

– Tem! E o choque pode ser grande!

– Imagino!

– Fio terra é uma questão de segurança!

– Segurança?

– Sim! A prensagem eletrostática ainda está em fase de desenvolvimento, e existe o risco de choque.

– Ãh, como o senhor chamou?

– Prensagem eletrostática, que é o nome do procedimento…

Enquanto falava os olhos de José fitaram a tela aonde o programa era mostrado, e com um pouco de esforço ele conseguiu ler o texto do gerador de caracteres, que dizia: “HOMEM CONTA SUA EXPERIÊNCIA COM MASSAGEM PROSTÁTICA”.

– Moça! Moça! Moça! – repetiu nervosamente José – Acho que está errado…

– Não, não, não! – repetiu calmamente a entrevistadora – Não há nada de errado! Errado está o machismo que não deixa o homem explorar a sua sexualidade, libertando-se das amarras do conservadorismo e da ignorância…

Antes que a apresentadora terminasse seu discurso libertário José se levantou e jogou longe o microfone. Tentou correr mas deu uma trombada em Giovana e derrubou todo o chá de tartaruga azul pelo chão. O diretor gritou chamando os comerciais, a apresentadora deu um piti e o contrarregra desmaiou em um canto do estúdio.

Ninguém percebeu que antes de fugir pela porta principal José levou a garrafa de uísque, que agora ele teria que tomar inteira para criar coragem de voltar pra casa.

 

 

 

jun 122015
 

 

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A declaração de amor fora de hora é um dos grandes clichês da dramaturgia. Os seriados americanos, principalmente os de comédia, sempre têm um episódio em que uma das partes do casal recém-formado diz “eu te amo”, e a outra responde sem jeito com um “obrigado” – um desencontro que serve de partida para piadas sobre o constrangimento de quem se revelou e a insegurança de quem não conseguiu responder com um mísero “eu também”.

Gabriel era conhecedor do chavão, mas não era uma declaração apressada que o martirizava. Ele expressou seu amor e o que escutou de volta foi um “não diga isso”. Gabriel esperara muito, e sua revelação fora tardia demais. Ela já tinha encontrado um outro alguém, e a declaração desencontrada acabou por não ter graça nenhuma.

A tristeza que se abateu sobre o jovem médico foi tanta que ele decidiu mudar de ares. Se juntou a um grupo de idealistas e saiu pelo Brasil afora, tratando de doentes nos rincões mais isolados do país. Alguns amigos elogiavam seu altruísmo, outros condenavam o fato dele desistir de uma promissora carreira na cidade grande, mas na verdade ninguém sabia que ele passara a acreditar que o amor era o que sobrava do choque entre as expectativas e a realidade, pelo que refugiar-se em lugares de possibilidades próximas a zero parecia ser a saída perfeita para não criar novas ilusões.

Foi numa dessas campanhas que ele conheceu aquela moça. Ela chegou reclamando de febre e dores pelo corpo, mas mesmo adoecida era uma mulher encantadora. Gabriel teve que se esforçar para se manter como apenas médico enquanto a consultava.

– Qual o seu nome? – perguntou ele.

– Clamídia – respondeu ela.

– Como?

– Clamídia, doutor. Como a flor!

Seu Florentino, o pai da moça, era uma pessoa muito boa, mas sem nenhuma cultura ou instrução. Quando Firmina, sua esposa, foi levada às pressas para dar à luz no hospital da cidade vizinha ele ouviu as enfermeiras falando sobre clamídia e achou que aquele fosse o nome da flor que adornava o quarto aonde sua mulher estava internada.  Como ela não sobreviveu, Florentino quis homenageá-la dando à filha o suposto nome da flor do cômodo aonde Firmina passou seus últimos dias.

Para azar da criança, a ignorância era um mal endêmico daquelas paragens, por isso ninguém nunca esclareceu que ela na verdade tinha o nome de uma doença venérea.

Apesar de ter estranhado, Gabriel tratou da moça com especial cuidado e poucos dias depois ela retornou, já bem melhor. E eles voltaram a se encontrar em outras oportunidades, tendo o pretexto do interesse médico sido substituído pela vontade cada vez mais forte de se verem.

A questão do nome, todavia, incomodava Gabriel. Parecia ser errado que ele, um médico formado por uma das mais importantes faculdades do país, não esclarecesse Clamídia do equívoco cometido pelo pai. Ao mesmo tempo, nem conseguia imaginar quanta tristeza aquela poderia informação causar.

Sua inquietação aumentava na medida em que seus sentimentos por ela também cresciam. Sentia-se inseguro por não saber o que dizer, por não saber como poderia se expressar da forma e na hora corretas.

Foi numa tarde de setembro, quando caminhavam pela praça e conversavam sobre a primavera que chegava, que Clamídia perguntou a Gabriel se ele já tinha visto a flor da qual seu pai emprestou o nome. O médico, sem titubear, respondeu que sim, que era a flor mais bela de todas, e que ela tinha mesmo o poder de transformar o mundo em volta daqueles que a conheciam.

Ambos sorriram. Ela, contente pela resposta que recebeu,  e ele, por compreender que existem outras formas de dizer “eu te amo” que independem do momento ou do jeito tido como certos.

 

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fev 132015
 

 

paolla-oliveira

 

A porta abriu e uma mulher de salto alto, usando um vestido preto justíssimo, pediu para que o casal entrasse. A esposa reparou nos cabelos da anfitriã; já o marido não conseguiu tirar os olhos do decote.

– Boa tarde, sejam bem vindos! Fiquem à vontade, podem se sentar. Como é mesmo o nome de vocês, queridos?

– Meu nome é Cristina, e o do meu marido é Valter. Nós somos de São José dos Campos.

– Ah, que ótimo! É um belo casal, sou uma privilegiada por recebê-los! Querem que eu busque uma bebida, um drinque para relaxar?

– Eu quero um uísque, pra ela você pode trazer um champanhe – disse o marido.

A mulher deixou a sala e a esposa  perguntou:

– Uísque? Champanhe? A gente nem bebe, homem!

– Ah, pelo preço que eu estou pagando, quero provar de tudo!  – A frase estava carregada de segundas intenções, mas a esposa não percebeu – E aí, o que achou dela?

– Ah, não sei… Ela não é nenhuma Paolla Oliveira…

– Querida, você também não é nenhuma Maria Fernanda Cândido e nem por isso…

– Como?

– Nada, nada… Mas que história é essa de Cristina e Valter?

– É o que me veio na cabeça, Adamastor.

– E agora nós somos de São José dos Campos, Jaqueline?

– Querido, você que inventou isso, agora tem que entrar no clima. Você acha mesmo que o nome da moça é Ana Paula Bombom?

– Acho que não mesmo…

– Ei, o que você está fazendo?

– Estou tirando a camisa, ora! Não é para isso que a gente veio aqui?

– Comporte-se, homem! Tenha respeito pela moça!

– Respeito?!? Mas…

Antes que ele terminasse a frase a mulher voltou à sala, trazendo os copos com as bebidas. Ela se sentou num sofazinho de frente para o casal e perguntou se era a primeira vez que eles faziam esse tipo de programa, pelo que foi respondido que sim. Ela quis saber se queriam esclarecer algo, então “Cristina” disse:

– Eu tenho uma dúvida sim…

– Pois pergunte!

– Achei lindos os seus cílios, são postiços?

– Sim, eu frequento um salão bárbaro, que fica aqui perto, se você quiser posso te passar o endereço. E eu achei o seu cabelo lindo!

– Ah, é aplique!

– Sério? Ficou ótimo, está muito natural!

– Obrigada! Todo lugar que eu vou as pessoas me falam: “nossa, Jaqueline, que cabelo lindo”!

O marido dá um cutucão.

– Ah, eles me chamam assim porque lá em Jacareí meu apelido é Jaqueline.

O marido abaixa cabeça e sussura: “Consertou bem…”

– Mas me fale mais de você, Ana Paula. Você estuda, tem filhos?

– Sério mesmo que é isso que você quer saber dela, Ja… Cristina?

– Não seja indelicado, meu bem, deixe a moça falar!

E a moça falou. Falou que tinha um filho de 10 anos (se o seu anúncio fosse então verdadeiro ela teria tido a criança com 11 anos de idade, mas isso não vem ao caso); falou sobre as dificuldades de ser mãe e profissional, o que causou comentários de “Cristina”; falou sobre o preço da escolinha, do material escolar, dos uniformes… As duas as mulheres passaram a conversar e trocar experiências que abrangeram pedagogia, moda, estética, política, finanças pessoais e quase todos os assuntos.

Todos os assuntos menos sexo, para desespero de Valter/Adamastor. Foi quando percebeu que o marido apontava para relógio que “Cristina” se deu conta que duas horas já se passado:

– Nossa, querido, vamos que está na hora e a Aninha tem que buscar o filhote na escolar. Pague a moça, por favor!

– Pagar a moça? Pelo quê? Nós nem fizemos nada!

– Nós tomamos tempo dela, querido. Além disso, só de conhecer uma pessoa tão batalhadora quanto a Aninha eu já me sinto revigorada! Sou praticamente uma nova mulher! Acho que a partir de hoje nós temos uma nova perspectiva do casamento, não é querido?

O marido olhava incrédulo, e ainda teve que escutar:

– Me desculpe, Aninha, o Adamas… o Valter é assim mesmo, um mão de vaca, mas é um bom homem e tenho certeza que ele vai se esforçar mais no nosso casamento!

A moça recebeu o dinheiro com um sorriso que mal cabia no rosto, e o casal foi embora com a mulher achando que teve uma tarde incrível. Já o homem partiu com uma desilusão que iria se  manter pelo resto da vida toda.

 

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fev 032015
 

 

morpheu

 

Já é chavão dizer que vivemos na Era da Informação. Desde a proliferação dos computadores e da internet, no final dos anos 90, temos à nossa disposição uma quantidade praticamente infinita de dados e fatos, algo que sequer era imaginado décadas atrás – basta lembrar que as grandes obras de ficção que retratavam mundos futurísticos (2001, Blade Runner, Jornada nas Estrelas, etc.) descreviam viagens espaciais, carros voadores e máquinas pensantes, mas nada traziam sobre uma rede de computadores interligados como temos hoje.

Embora alguns filmes já tivessem mostrado a internet como fenômeno contemporâneo, foi a partir do sucesso de Matrix (1999) que a rede se mostrou realmente importante no cinema. E foi também nesse filme que se retratou um dilema fundamental para o homem moderno: que informação escolhemos receber para guiar nossas vidas?

Em um momento crucial de Matrix, o personagem Morpheus pergunta ao protagonista Neo qual pílula ele quer tomar: a vermelha, que o leva para a realidade, ou a azul, que o mantém na fantasia virtual criada pelas máquinas. Como não poderia deixar de ser, Neo escolhe a pílula vermelha, e a partir de então começa a descobrir um mundo novo e completamente diferente daquele ao qual estava habituado.

Nas nossas vidas as coisas não acontecem de forma tão dramática, mas diariamente somos apresentados a doses gigantescas de informações boas (que discorrem sobre a realidade e trazem conhecimento útil) e ruins (mentiras, calúnias, fantasias e difamações) que acabam por moldar a percepção que temos do mundo. O problema é que muitas vezes não refletimos sobre a qualidade e a relevância daquilo que recebemos – não paramos para escolher qual pílula estamos tomando, e apenas a engolimos sem sequer olhar para a sua cor.

O arcabouço de conhecimento que hoje está disponível em alguns cliques é capaz de transformar a sociedade, e a comunicação em tempo real é uma conquista do homem moderno. Todavia, para que possamos nos beneficiar verdadeiramente disso tudo é necessário estabelecer também uma postura crítica diante daquilo que nos é oferecido e que eventualmente repassamos para terceiros.

As redes sociais, por exemplo, estão infestadas de notícias, comentários e fatos que não resistiriam a dois minutos de reflexão e de pesquisa na própria internet. Ainda assim, muitos absurdos são compartilhados infinitamente e acabam formando – ou melhor, deformando – a opinião de milhares de pessoas.

Algumas vezes essa aceitação e disseminação do que não está correto se dá por ingenuidade e desconhecimento, mas em muitas outras o que ocorre é a pura cegueira ou comodidade, afinal, aquilo que é compartilhado está de acordo com as ideias e preconceitos que já estão arraigados.

Desnecessário listar os motivos que desautorizam tais práticas, mas ainda que os princípios éticos e morais não fossem suficientes, temos também um argumento jurídico para se adotar mais cuidado na rede: a Justiça brasileira já decidiu que quem compartilha ou curte um texto difamador na internet pode ser considerado como corresponsável pelo conteúdo, pois ao contribuir com sua divulgação emitiu expressa concordância com o que foi escrito. Assim, repassar uma publicação prejudicial a terceiros pode dar ensejo a penalizações civis e criminais.

Evidentemente, a dicotomia entre informação boa e ruim não vigora apenas na web. Muito do que vemos em revistas, jornais e canais de televisão supostamente sérios estão carregados de ranços e preconceitos – às vezes disfarçados, outras vezes nem isso. Também é necessário ser seletivo em relação a tais fontes, mesmo porque costumeiramente pagamos para ter acesso a essas mídias.

Como para quase tudo em nossa sociedade, consumir informação também exige cautela e conscientização. Mais fácil seria se as escolhas viessem separadas por cores, como em Matrix, mas optar por receber conhecimento útil em vez de mentiras convenientes pode não ser tão complicado quanto parece – basta ter disposição para a crítica e para a luta contra os preconceitos e os erros, coisas que não são exclusivas de heróis do cinema.