set 182018
 

 

 

 

O telefone tocou às 3h55. Muito antes da hora programada para o alarme, pouco depois que Luiz se deitara. O quarto foi iluminado pela claridade da tela do celular, que vibrava e emitia um som repetitivo, transformando o cômodo numa pequena boate para o homem que acordou assustado.

– Alô? Alexandre? O que houve? – Perguntou Luiz,com uma voz que denunciava que o álcool ainda não fora devidamente processado pelo organismo.

– Cabeça, me diz uma coisa, quem ganhou a Copa de 82?

– Como é que é?

– A Copa de 82… Quem ganhou?

Breve silêncio.

– Puta que pariu, Alexandre! Cê viu que hora são? Eu tô dormindo, cacete, quase morri do coração!

– Responde pra mim, Cabeça, por favor.

– Você está mais bêbado que eu, é isso?

Luiz morava a mais de seiscentos quilômetros de São Paulo, e não sabia o que tinha acontecido com seu amigo dos tempos de colégio. Era chamado pelos colegas de Cabeça graças ao seu conhecimento enciclopédico sobre futebol, e sempre era consultado quando surgia uma discussão acerca de algo fundamental como o nome do zagueiro central da Portuguesa de 96 ou o placar do jogo entre Santos e Corinthians no Paulistão de 87.

Seu interesse por esportes o levou a cursar educação física em Presidente Prudente, e por lá ficou depois da pós-graduação, tornando-se professor na faculdade que frequentou. Agora ele estava ao telefone com Alexandre, um amigo querido, mas de quem não tinha notícias há algum tempo, e que lhe estava fazendo uma pergunta ridícula no meio da madrugada.

– Cabeça, aconteceram umas coisas, eu não sei se você está sabendo, mas eu preciso que você me diga sobre a Copa.

– O Brasil perdeu em 82, Alê… Todo mundo sabe, o mundo inteiro sabe, você sabe, conversamos sobre isso várias vezes… O que está acontecendo?

Alexandre fez silêncio por uns instantes e respirou fundo antes de responder:

– Eu tive um acidente, Cabeça… Fiquei em coma por uns dias mas agora eu estou recuperado.

– Cara, eu não sabia – disse Luiz, já de pé e a caminho da cozinha, aonde foi buscar um copo de água – Você está bem? O que aconteceu?

– Eu estou bem, mas… O Brasil não ganhou aquele jogo da Itália nos pênaltis? Eu tinha certeza que o Brasil tinha passado pela Itália, depois da Holanda, e vencido a Alemanha na final, por dois a zero.

– Putz, que confusão! O Brasil perdeu da Itália: três a dois, com três gols do Paolo Rossi. A Holanda nem jogou aquela Copa!

– Meu Deus! Eu me lembro claramente dos gols da final… O goleiro soltando a bola nos pés do Zico…

– O goleiro alemão soltou a bola nos pés do Ronaldo, em 2002. Você está fazendo uma salada futebolística: a Itália perdeu nos pênaltis pro Brasil na final da Copa de 94, a Holanda perdeu na semifinal em 98 e a Alemanha perdeu em 2002.

A seleção de 82 entrou para a história justamente por ter sido formada por uma geração de craques que não venceu, mas não era disso que Alexandre se lembrava. Pouco antes de fazer a ligação ele resolveu acessar a internet, coisa que não tinha feito desde que deixara o hospital. Abriu as redes sociais e leu várias das mensagens que tinham sido deixadas em seu perfil, mas eram tantas que logo se cansou. Começou a navegar pelos sites e se deparou então com uma entrevista de Falcão, o Rei de Roma, na qual ele falava sobre as causas do fracasso da seleção na Copa da Espanha.

Alexandre ficou sem compreender, afinal, a alegria pela conquista daquela Copa tinha sido um momento mágico de sua infância. Ele se lembrava de comemorar abraçado com seu pai e seus irmãos, do seu tio chorando, da sua mãe vestida de amarelo na casa da rua do morro.

De repente, tudo aquilo não era mais verdade, tudo se tornou estranho.

Sem pensar muito no que fazia, ligou para o amigo que mais confiava acerca de memória do futebol, e se sentiu mais confuso ainda. Mesmo depois de confirmada a notícia da derrota, foi difícil aceitar. Não havia motivos para duvidar do Luiz Cabeça, mas suas lembranças eram tão firmes e detalhadas que era difícil não crer que eram reais.  Uma parte feliz da sua infância lhe foi arrancada repentinamente, causando não só um vazio difícil de explicar, como também uma séria preocupação com a própria sanidade.

– Alê, Alê… Cara você está aí?

Alexandre ouviu o chamado do amigo e olhou para o telefone, desolado. Deu um sorriso triste e disfarçou:

– Ei, Cabeça, são esses remédios que eu ainda estou tomando. Eles me deixam sem dormir direito e aí eu fico meio xarope. Faz três dias que eu saí do hospital e ainda deve ter muita porcaria no meu sangue! Cara, me desculpe por ligar a essa hora, eu devo ter sonhado com esses jogos aí que eu falei pra você e aprontei essa presepada, tô até com vergonha!

– Alê, você está bem mesmo? Eu estou em época de provas na faculdade mas posso me planejar pra ir pra São Paulo em breve, assim você me coloca em dia com todos esses acontecimentos.

– Vai ser muito legal te receber aqui – mentiu Alexandre – Eu estou bem, pode ficar tranquilo – mentiu de novo.

– Tá bom, meu irmão, a gente se fala. Fiquei preocupado com você.

– Não precisa não, Cabeça. Eu estou bem. Vou acordar achando que essa conversa que estamos tendo agora é um sonho, depois vai me bater uma ressaca moral quando confirmar no histórico do celular que eu te liguei mesmo.

– Nem me fale de ressaca que já começo a sentir os efeitos da minha. Fica com Deus.

– Grande abraço!

Luiz desligou o telefone e não sabia se ficava preocupado ou se dava risada do amigo, que parecia estar mais chapado do que ele. Decidiu que voltaria a pensar nisso depois que estivesse recuperado, se ajeitou na cama para voltar a dormir, e então lhe veio um pensamento à cabeça: “Se Alexandre pensava que o Brasil venceu a Copa de 82, o que será que aquele maluco lembra da Copa de 2014?”

 

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maio 242018
 

 

 

Sentado em uma mesa de costas para a porta, Alexandre olhava pela janela a chuva que caía com força. Celebrou a própria sorte por ter chegado antes do aguaceiro e imaginou que a partir daquele momento as coisas poderiam finalmente mudar. Ele então inseriu o canudinho no copo de refrigerante, abriu o pacote de guardanapos e estava tirando o lanche da caixinha quando sentiu uma mão em seu ombro:

– Oi, Alexandre, tudo bem? Como você está?

Era Clara, uma conhecida desde os tempos de adolescência no antigo Clube V, aonde passavam os finais de semana. Ela era uma mulher bonita, com bochechas rosadas e cabelos avermelhados, e que tinha costume de continuar falando antes de ouvir a resposta.

– Que bom que você está recuperado! Todos ficamos apreensivos, rezamos muito pela sua saúde. Eu sempre tive fé que tudo ia dar certo!

– Poxa, nem tenho como agradecer – respondeu ele, sem graça.

– Você parece bem! Está mais magro! Que bom te ver assim. A_________ está aqui também, foi lavar as mãos. Ela vai gostar de te ver.

– Quem está aí?

– A   ___________!

Alexandre não ouviu o nome da moça, embora Clara tenha dito perfeitamente. Ele viu os lábios se mexendo, mas nenhum som foi emitido, ao menos para seus ouvidos. Antes que pudesse perguntar novamente, a ruiva anunciou:

– Pronto, foi só falar que ela apareceu. Amiga, veja só quem está aqui!

A colega de Clara conhecia Alexandre muito bem, pois ambos tinham sido namorados naquela mesma época do clube. Foi um relacionamento breve e sem muita importância na vida dos dois, e que acabou sem gerar nem saudades nem ressentimentos. Nada que justificasse o desprezo que ele aparentou demonstrar ao sequer cumprimentá-la.

A inércia de Alexandre, todavia, não foi proposital. Assim como não tinha escutado o nome da moça antes, ele também não a enxergava, mesmo que estivessem a alguns centímetros de distância. Ele percebeu que algo estava errado pela reação de Clara, que por sua vez não compreendia o motivo dele ignorar sua amiga.

– Faz tempo que vocês não se veem? – perguntou a ruiva, tentando quebrar o gelo.

Alexandre não podia responder já que não via ninguém ali, nem tinha a menor ideia de quem fosse. Já incomodada com a situação e sem entender o motivo daquilo, ___________ falou da última vez que tinham se encontrado.

– Ah, já faz um tempinho então… – disse Clara – Bom, vamos comer que essa chuva deixou o dia ainda mais corrido.

Clara puxou ___________ pelo braço e foi se sentar no outro lado do salão com a amiga, que estava indignada com a atitude de Alexandre. “Calma! Acho que ele não está muito bem da cabeça. Está com uma cara de bobo”.

A avaliação estava correta, inclusive sobre a feição de Alexandre, que mal conseguia comer o lanche à sua frente. Sua cabeça estava borbulhando, tentando compreender o que acontecera e, mais ainda, tentando descobrir quem era a pessoa invisível.

Pensou em várias amigas que tinha em comum com Clara, mas poderia ser qualquer uma delas. De todas as possibilidades, porém, em nenhum momento lhe ocorreu _________, que simplesmente não existia em suas memórias.

Muitas pessoas pagariam para esquecer de momentos trágicos ou de pessoas que causaram alguma dor. Alexandre até se lembrou de ter visto algo sobre uma empresa americana que apagava relacionamentos frustrados da memória, era uma firma criada pelo ator Jim Carrey, ou algo assim. Mas, inconscientemente, Alexandre tinha ido além: não só deletou aquela pessoa como também a bloqueou por completo, tornando ___________ um nada, como um fantasma para quem não crê na vida após a morte.

A situação fez a fome de Alexandre se transformar em mal-estar, e terminar de comer se tornou impossível de vez quando Clara e a amiga voltaram para a mesa do rapaz. __________ estava tão indignada com o aparente desprezo dele que quis tirar satisfação, mas tudo o que ele via era o constrangimento da amiga ruiva com aquela cena na lanchonete. Ele resolveu então tentar esclarecer, no tanto que fosse possível:

– Clara, deixa eu te falar uma coisa: você sabe o que aconteceu comigo, e tudo o que houve mexeu com a minha cabeça, de uma forma que eu não sei explicar. Eu estou tendo ainda uns lapsos, uns apagões, e tá foda… Me parece que você está com alguém aí com você, mas eu não tenho a menor ideia de quem seja.

– Você não se lembra da __________?

– Não.

– Poxa, Alê, olhe bem pra ela, impossível que não se recorde dela! Vocês foram namorados, que feio isso!

Alexandre torceu a boca.

– Pra ser sincero, eu não estou nem enxergando essa pessoa que está aí com você.

___________ ficou muito irritada com o que ouviu. Achou que fosse mentira, se sentiu desrespeitada e inutilmente disse um monte de palavrões e xingamentos para o rapaz. A inércia de Alexandre a deixou mais brava ainda, ao ponto dela tascar um tapa na cara do ex-namorado antes de sair pisando duro.

– Pelo menos isso eu senti… – disse sorrindo envergonhadamente para Clara, que se despediu e foi atrás da amiga, sob a chuva que continuava a cair.

 

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set 212017
 

 

 

As portas se abrem e todos deslocam seus olhares à noiva, que aparece trajando um belíssimo vestido branco e um sorriso tenso e largo. Todos se levantam e os músicos começam a cantar à capela. Nesse momento, ao lado do altar, um dos padrinhos começa a cochichar para o noivo:

– Putz, essa música, agora, não!

– Por quê?

– Essa música me lembra sacanagem.

– Cara, tá tocando Ave Maria, de Schubert!

– É, eu sei, é essa mesmo.

– Você tem que ser muito pervertido pra pensar em sacanagem enquanto toca Ave Maria!

– Ou a sacanagem é que foi muito boa.

– Ah, qual é? Isso não é hora de brincadeira.

– Não estou brincando não. Você sabe que eu não sou de me gabar mas…

– Mas é isso que você está fazendo bem agora, se gabando durante o meu casamento!

Uma das madrinhas faz “psiu”, cobrando silêncio. Os dois se calam para observar a noiva, que ainda não tinha chegado ao meio da nave. Lágrimas emocionadas escorrem de alguns rostos, borrando instantaneamente maquiagens que foram produzidas durante horas. Cada passo dado com vagar faz os fotógrafos trocarem de posições, encenando uma estranha coreografia. O noivo então cochicha para o padrinho:

– Conta aí.

– O quê?

– Conta aí qual foi a sacanagem.

– Não posso.

– Por quê?

– Estamos numa igreja, não posso falar disso.

– Não quer falar, mas você está pensando nisso, né?

– Sim! – A confirmação vem acompanhada de um largo sorriso.

– Filho da …

– Shiiii! – A mesma madrinha volta a interromper a conversa, agora olhando de forma firme para ambos.

A noiva continua vagarosamente, e seu pai, que caminha ao seu lado todo orgulhoso, faz mais pose para as fotos do que a própria estrela do evento. Cada novo flash, um sorriso diferente. O noivo volta a inquirir o padrinho:

– Quem sabe dessa história?

– Ninguém! Quase contei para o padre Antônio, mas desisti.

– Você ia falar para o padre de uma sacanagem sua?

– Eu ia me confessar.

– Confessar? Mas você nem é católico!

– Pra você ver o tamanho do pecado!

– Foi com a Lavínia?

– Também!

– Como?

O noivo encara o padrinho por instantes, perplexo, até que recebe um cutucão. A noiva já tinha chegado ao altar e olhava de forma atravessada, indignada com a falta de atenção do seu futuro marido. Ele então sorri, recebe a mulher do sogro, e se encaminha até o padre, que celebra a cerimônia e os declara marido e mulher.

***

Os recém-casados já receberam os cumprimentos e agora se sentam em uma mesa no salão em que realizam sua festa. A esposa aproveita o breve momento de calmaria para perguntar ao marido:

– O que foi aquela conversa no altar com o Parini?

– Ele me deixou curioso com uma história justo na hora que você estava entrando. Falou que a Ave Maria o fez lembrar de uma sacanagem, veja só!

– Ah, é?

– Cara sem noção. No momento que toca a música que a noiva escolheu para marcar um momento da vida, ele começa a lembrar de besteira!

– Desencana, amor! Deixe pra lá, agora não é hora disso! Espere um minutinho, vou tirar uma foto com a Lavínia e já volto.

– Aproveite e pergunte pra ela, vocês conversam sobre tudo mesmo! Eu não me importo em ser um último a saber.

– Que bom que não se importa, amor – e sorri a noiva, de um jeito diferente de todos os outros sorrisos que deu naquela noite.

 

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jun 072017
 

 

 

“Que pena… quando você sair daqui, nunca mais vai pensar em mim”.

Laura estava sentada no lado oposto ao do homem de terno cinza e gravata amarela. Seus olhares já haviam se cruzado algumas vezes, e o discreto sorriso que ele deu fez o rosto dela se avermelhar de vergonha. Ela era tímida, mas flertar com aquele estranho no metrô era algo que não podia resistir.

O homem era muito bonito. Alto, com rosto esguio e barba bem aparada, sentava-se de forma elegante e pouco desviava os olhos do que estava à sua frente. Parecia estar absorto em pensamentos profundos e graves, o que conferia ao sorriso dado um verniz ainda mais especial.

O metrô estava ainda vazio, comum para aquele horário do meio da manhã. Uma turma estudantes entrou no vagão falando alto, chamando a atenção como os garotos bobos tanto gostam de fazer. Uma mulher segurava uma sacola cheia de produtos de supermercado. Um outro homem de terno, não tão bonito, estava de pé, embora muitas poltronas estivessem vagas. Laura sentava-se de costas para a janela, e às vezes olhava para celular, ajeitava o livro e a pasta que carregava no colo, mexia nos cabelos avermelhados que escorriam por trás das orelhas e voltava a espiar aquele que imaginou se chamar Jonas.

“Ele tem cara de Jonas”.

Ela não sabe por quê pensou nesse nome, que achou que combinava com o que parecia ser um advogado indo atender um poderoso cliente. Ou com um renomado executivo que iria tratar de negócios milionários em uma importante reunião. “Mas rico ele não é. Rico no Brasil não usa metrô. Ele ainda vai ficar rico!”.

Tentou adivinhar quantos anos o homem teria. “Entre trinta e trinta e cinco”. Imaginou Jonas apresentando relatórios sobre balanços financeiros altamente positivos para uma mesa de senhores e senhoras sisudos. Em certo momento, ele faria uma tirada espirituosa e daria um discreto sorriso, fazendo todos balançarem a cabeça por admiração à sua inteligência e ao seu charme.

Pensou também em como ele seria falando perante um tribunal. Com o dedo em riste e voz firme, mas sem perder a pose, apresentaria seu argumento inquestionável que emudeceria a plateia, convenceria os jurados e conquistaria todos os corações.

Só depois que o trem voltou a se mover que Laura parou com seus devaneios e percebeu a mulher que entrou na última estação. “Que perua!”, pensou ela, sem admitir que se tratava de uma moça belíssima, usando uma roupa que torneava o corpo sem deixá-la vulgar. Todos que estavam no vagão olharam para aquela mulher, e homem de terno que estava em pé até mudou de posição para enxergar melhor.

O incômodo daquela presença se tornou ainda maior quando Laura flagrou Jonas olhando para a moça. “Sério?”. Em milissegundos, sentiu indignação, inveja, ciúme, desprezo. Fez-se de desinteressada antes que voltasse a olhar para o homem que voltava a fitar para a frente de forma impávida.

Foi então ela percebeu que o homem que estava de pé acompanhava a situação toda e também sorriu, mas de forma cúmplice. Laura voltou a ruborizar, imaginando que todos os seus pensamentos sobre Jonas e a Biscate (foi esse o nome que ela deu para aquela mulher bonita) serviam de divertimento para um estranho.

Dos alto-falantes do vagão saiu o anúncio da próxima parada, e era vez de Laura descer. Ela se levantou, rumou até porta e olhou uma última vez para Jonas, que acompanhou sua saída e deu um último sorriso com o canto da boca.

Laura desceu do trem equilibrando os materiais de estudo, a pasta e o livro, procurou pela saída, enroscou-se na catraca com uma senhora de cabelos arroxeados e deixou a estação preocupada com o horário e com a chuva que parecia estar por vir.

Na rua, seus pensamentos foram tomados pela cidade e suas distrações, e então ela se esqueceu de Jonas para sempre.

 

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abr 262017
 

 

 

Das três companheiras de caminhada, Pérola era a mais falante. Desinibida por natureza, fazia a alegria de Ágata, que muito ouvia e pouco se manifestava, e de Safira, que estava sempre um passo atrás, tanto no trajeto quanto na conversa.

Pérola contava suas histórias, sobre a própria vida e sobre vidas alheias, com exageros e trejeitos que deixavam tudo mais divertido. Ágata sorria de forma discreta, e às vezes olhava de soslaio quando a narrativa ganhava tons inacreditáveis. Já Safira de tudo ria desbragadamente, mesmo quando não entendia muito bem qual era graça. Às vezes, aliás, era na sua própria lentidão para perceber as coisas que estava o mais engraçado de tudo.

As amigas caminhavam quase todos os dias bem cedo, cerca de cinquenta minutos, o que correspondia a uma volta completa em torno da lagoa. Estavam firmes na intenção comum de perder peso e ganhar saúde, objetivo esse que era rotineiramente sabotado pelos exageros cometidos na hora do almoço.

Naquele dia, no final do verão, uma nova colega se juntou ao grupo. Esmeralda já era conhecida, também queria entrar em forma, e foi recebida sem qualquer objeção.

Além de ser uma nova companhia, Esmeralda era o pretexto perfeito para Pérola fazer as duas coisas que mais gostava: recontar suas histórias e exibir Alfonso, seu namorado. Em vez de caminharem pela lagoa, Pérola sugeriu então que fizessem outro caminho, dando a oportunidade de mostrar às amigas a bela casa em que ele morava.

Como costuma acontecer nessas situações, porém, algo deu errado.

Logo após ter apontado para a grande casa azul, Pérola e suas companheiras viram a porta se abrir. Ao invés de Alfonso, quem saiu foi uma bela mulher loira, não muito alta, mas de corpo esguio e bem torneado.

Pérola tentou disfarçar e continuar a caminhada normalmente, mas em pouco tempo suas galhofas se tornaram mais raras, até sumirem totalmente. Ágata, que quase não falava, emudeceu de vez. Esmeralda ficou tão constrangida que teve vontade de ir para casa. E Safira só quebrou o silêncio quando pediu para as amigas andarem mais devagar.

Mais do que a traição, o que doía era a vergonha das companheiras terem presenciado a cena. Embora já tivesse tido muitas paixões, Pérola nunca chorou de verdade por homem nenhum, e Alfonso tampouco seria um alguém que valesse mais que duas noites de fossa. Todavia, ela via nele virtudes que compensavam o compromisso e estava entusiasmada com o que ele proporcionava.

O flagrante, porém, exigia uma atitude. Algo deveria ser feito para remediar aquela situação tão constrangedora. Talvez uma vingança. Talvez um escândalo. Talvez uma sova. Talvez tudo isso e algo mais a se pensar.

Pérola ponderou muito, e ao final adotou a solução que lhe pareceu mais prática: em vez de mudar de namorado, mudou de esporte. Deixou as companheiras de caminhada e começou a fazer hidroginástica. Afinal, aquela moça poderia ser uma prima de Afonso, por que não? E certamente seria mais trabalhoso arranjar um novo namorado do que novas amigas na piscina…

No final das contas, tudo se acertou. Esmeralda se firmou nas caminhadas, e assim se manteve como trio o grupo de amigas que se exercitava de manhã em volta da lagoa. Embora Pérola tenha dado algumas desculpas, elas guardavam certo ressentimento da colega pois era óbvio o verdadeiro motivo do afastamento.

Óbvio exceto para Safira, pois essa até hoje não entendeu nada do que se passou.

 

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abr 122017
 

 

 

“Quanto tempo faz? ”.

Caía uma chuva fina e a noite já estava alta, mas mesmo assim Carlos tirou o capacete para melhor observar a casa amarela de portões brancos. Era um imóvel simples, mas conservado com visível cuidado, que ficava numa pacata rua da cidade.

Enquanto ele tentava se lembrar de quando aquela estranha noite aconteceu, veio à sua mente a imagem de Amanda.

***

Moça de traços delicados que ressaltavam seus grandes olhos castanhos, Amanda tinha uma beleza que estava longe de ser exuberante, mas que cativava. Embora muito tímida, era tida como uma boa colega por seus companheiros de faculdade, e foi graças a um trabalho em grupo que Carlos se aproximou da moça.

Aos poucos o coleguismo se transformou em amizade, e a amizade virou namoro. O convite que ela fez a Carlos para que fosse uma noite jantar em sua casa foi então um passo firme ao um compromisso mais sério, o qual ele estava pronto a assumir.

O convite era ainda mais especial para Amanda. Sua mãe morrera fazia alguns anos e a partir disso ela se tornara mais reservada. Carlos seria o primeiro namorado a ser apresentado a seus familiares.

Carlos chegou pontualmente às 20h, parou sua moto em frente ao portão e tocou a campainha com certa apreensão. Amanda surgiu na porta e deu um sorriso largo, como não estava acostumada a dar, e abriu o portão apressadamente. Deu um beijo em Carlos e pediu que ele entrasse e deixasse a jaqueta e o capacete sobre a poltrona. Não houve tempo para continuar a se sentir incomodado: o pai de Amanda, Onofre, veio e lhe deu um abraço, e o menino Jonas também se mostrou um bom anfitrião.

À vontade, conversaram na sala até que o timer do forno tocou, avisando que a refeição estava pronta. Foi quando passaram à sala de jantar que Carlos viu que havia cinco pratos à mesa, o que o fez perguntar:

– Vocês estão esperando mais alguém?

Amanda voltou a sorrir sem graça, apontou para o lugar da mesa aonde Carlos iria ficar, puxou a cadeira e começou a explicar:

– Carlos, eu já te contei que nós somos espíritas, não foi?

– Sim, e eu te contei que eu ia num centro pra tomar passe de vez em quando.

– Pois é… Então, aqui em casa, todo mundo é médium também.

O rapaz arcou com o corpo para frente, se ajeitando melhor para o que viria em seguida.

– Meu pai psicografa mensagens. Meu irmão ouve os espíritos. E eu sou médium vidente. Eu vejo, mas nada ouço.

– E isso tem relação com o prato a mais na mesa por que…

– É a minha mãe, Carlos. Ela que está ali. De vez em quando ela vem e participa das coisas da casa conosco, e hoje ela fez questão de vir te conhecer.

– Sua mãe?

– Sim…

Desta vez foi Carlos que sorriu sem graça. Não deu continuidade ao assunto, mas ficou visivelmente incomodado com a situação. Às vezes mirava para o prato posto à mesa e a cadeira vazia, mas rapidamente desviava o olhar para os anfitriões, que perceberam o mal-estar da visita.

A conversa, que fluía naturalmente no começo da noite, passou a se tornar escassa. Carlos então apressou sua despedida dizendo que precisava dormir cedo e que tinha muito trabalho no dia seguinte.

Pegou suas coisas, deu um beijo em Amanda e foi embora com sua moto à toda velocidade.

 

***

 

Agora Carlos estava de volta ao portão, sem saber muito bem o motivo. Repentinamente, a porta se abriu e Amanda apareceu. Ele deu um passo para trás, mas assim que se virou para a rua pôde ouvir:

– Espere!

Ele parou e olhou para a moça, que chorava. Ele perguntou o porquê das lágrimas, mas ela somente abriu a porta e depois o portão, e pediu para que ele entrasse.

– Você sempre será bem-vindo aqui – disse ela.

Carlos entrou timidamente. Tirou a jaqueta e colocou sobre o mesmo móvel da outra vez. Ao colocar o capacete, todavia, percebeu a enorme rachadura no casco. Confuso, foi levado por Amanda até a sala de jantar, e lá estava sentada uma mulher com cerca de cinquenta anos, de olhos grandes e sorriso tímido, que disse com voz suave:

– Venha, Carlos, sente-se no seu lugar. Agora nós dois precisamos conversar.

 

 

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mar 072017
 

Jonas acordou num sobressalto.

Estava caindo de altura incomensurável, por um tempo infinito, até que despertou de súbito. Apesar de uma sensação incômoda, a rotina lhe era tão dominante que quando se deu conta já estava na rua, correndo para chegar ao metrô; para chegar ao trabalho; para passar o dia enclausurado; para voltar tarde; para dormir mal; e para acordar incomodado novamente na manhã seguinte.

O céu estava limpo e o clima era agradável, mas Jonas não percebia nada a sua volta. As pessoas passavam e ele não via, não notava. A única coisa que chamou sua atenção foi um zumbido no ouvido que começou repentinamente.

A princípio, ele achou que era do mal-estar que sentia, mas o barulho aumentava cada vez mais, fazendo que procurasse a origem do som até que visse nos céus a cena mais impressionante: centenas de aviões se aproximavam. Não, recalculou ele, talvez fossem milhares. Era uma quantidade absurda de aeronaves voando em formação.

Quando as primeiras passaram por sobre sua cabeça, em uma altura tão baixa que era possível ver claramente as pinturas na fuselagem, a surpresa deu lugar ao terror: eram antigos aviões de guerra de modelos e marcações variados.

Em um instante Jonas se deu conta do absurdo da situação, mas logo em seguida as bombas começaram a zunir nos céus enquanto caíam lentamente sobre a cidade.

Milhares de aviões, de repente, soltavam milhões de bombas.  E Jonas estava bem no centro de tudo.

O barulho foi tanto que de repente sumiu completamente – a cacofonia era ensurdecedora. A terra tremeu a ponto de jogar tudo o que estava sobre o solo para o alto. O céu escureceu e tornou-se negro de fumaça e poeira.

No meio do caos absoluto, o silêncio e a escuridão.

Jonas esteve no ar, caiu no chão, e foi jogado para cima novamente. Foram tantas e tantas vezes que pareceu ser algo interminável. E durante o tempo todo Jonas esteve consciente, sentindo e repetindo em todas as vezes as dores e agonia de cada impacto.

Quando as explosões cessaram, não havia nada em pé sobre a terra. Fogo, fumaça e pó era o que se via por todo lado.

Não era mais possível reconhecer ruas ou prédios naqueles escombros. Montanhas de entulho bloqueavam a vista para o horizonte e o céu sumira graças à fumaça. E não havia mais ninguém em lugar algum. Jonas era o único que restara.

Ele vagou sem destino por muito tempo até que se deu conta de que tudo era tão irreal que só poderia ser um sonho. Pensou então em acordar, mas nada ocorreu. Beliscou o próprio braço, mas sem resultado.

“Se não estou sonhando, só posso estar morto” – pensou ele – “Ninguém poderia sobreviver àquilo”.

Enquanto filosofava sobre a própria mortalidade algo vibrou no seu bolso. Era o celular que carregava sempre consigo. Talvez fosse o alarme que o despertaria de vez e o tiraria daquele inferno, imaginou, mas ao olhar para a tela viu que se tratava de uma chamada de um número desconhecido.

Ter o aparelho funcionando naquele caos era apenas mais uma entre tantas coisas impossíveis que se sucediam, então atender a chamada era a única atitude sensata a ser tomada. A voz do outro lado foi lacônica:

– Olhe para sua esquerda, ache o toco de árvore e siga no seu sentido até encontrar.

Jonas viu o toco, seguiu na sua direção e foi adiante. Caminhou por um tempo incalculável pelo cenário desolado e enxergou ao longe um prédio alto, aparentemente intacto, única edificação visível em um raio de quilômetros.

O prédio era conhecido. Tratava-se da sede do Tribunal Trabalhista, local em que Jonas já estivera algumas vezes. Era uma edificação grandiosa, reconhecível pela sua suntuosidade e pelos seus corredores vazados.

Para surpresa de Jonas, um trecho da avenida de acesso ao prédio estava também intacto. E repousavam no final daquela via, logo na entrada do edifício, dois aviões iguais aos que atacaram a cidade. Era possível ver que no mais distante estava um piloto; a cabine da aeronave mais próxima estava vazia.

O piloto fez um sinal, deu partida no motor e seguiu pela pista da avenida até tomar os ares novamente. Jonas seguiu até o avião vazio, entrou na cabine com dificuldade e ajeitou-se perante os instrumentos que lhe pareceram simples e familiares. Ligou o motor, taxiou a aeronave e também percorreu a avenida para decolar suavemente.

Antes de seguir o caminho do avião que decolou primeiro, Jonas deu uma volta no prédio do Tribunal, uma torre que agora se tornara magnífica no meio de toda destruição que ia além do horizonte. Ao passar bem próximo da edificação, foi possível ver que havia pessoas lá dentro, aparentemente iguais a ele.

Jonas fez o avião subir e rumou para o oeste. Primeiro avistou a aeronave que havia lhe esperado, depois, viu a gigantesca esquadrilha que sobrevoara a cidade. Na formação, dois espaços estavam vagos, e o piloto à sua frente rumou para se encaixar em um deles. Jonas então seguiu para o outro, certo de que aquele ali seria o seu lugar para sempre.

 

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jan 272017
 

 

mariola

 

 

Era véspera de Natal. O supermercado estava lotado e as filas eram longas e lentas. O jovem no caixa terminava de passar as compras de uma senhora de cabelos cor de beterraba, quando viu o homem que aguardava na fila:

– Senhor, me desculpe – disse o rapaz. Esta é a fila para os clientes preferenciais. Peço que procure outro caixa.

– Eu sei que esta é a fila do preferencial – respondeu o homem.

– Então, senhor… Este caixa só atende idosos, grávidas, pessoas com criança de colo ou portadores de necessidades especiais.

– Se é assim, estou na fila correta.

O caixa olhou bem para o homem, que aparentava não ter mais que trinta anos e não carregava criança alguma no colo. Pensou um pouco e disse, envergonhado:

– Perdão, senhor… Eu não tinha reparado que o senhor tem necessidades especiais.

– E quem disse que eu sou deficiente?

– Ora, o senhor é muito jovem para ser idoso e…

– Eu estou grávido! – disse o homem, interrompendo o caixa.

– Como?

– Eu estou grávido!

– Que absurdo!  – nesse momento, todos no supermercado acompanhavam o drama – O senhor queira já sair dessa fila antes que eu chame o segurança!

– Absurdo é a sua ignorância, rapaz! Exijo o gerente aqui agora!

O jovem apertou um botão ao lado da registradora e acendeu uma lâmpada sobre o número do caixa. Nesse momento, de um mastro até então despercebido desceu o gerente, como fosse um bombeiro chamado para uma emergência.

– Pois não, o que está acontecendo? – perguntou gerente ao rapaz no caixa.

– Este homem está na fila de atendimento preferencial e não quer sair pois diz que está grávido!

– Isso mesmo! Eu quero que meus direitos sejam respeitados!

O gerente ajeitou os óculos para mirar o homem da fila:

– Em tantos anos de supermercado, nunca vi algo assim! Isso é um absurdo!

O jovem caixa consentiu com a cabeça.

– Você não pode fazer isso! Será que você não consegue perceber que esse homem está grávido? – disse ao jovem, que quase caiu da cadeira. Virou então para o homem e continuou:

– O senhor me desculpe, prometo que isso nunca mais vai acontecer. Vou eu mesmo passar a sua compra. Você, rapaz, está dispensado.

O gerente tirou do bolso uma caixa com um botão, que ao ser apertado fez o rapaz ser ejetado da cadeira e jogado para fora do prédio. O gerente passou as compras do homem pelo leitor de código de barras e anunciou o valor total:

– Ficou em duzentos e quarenta reais

– Hmmm… posso pagar com uma mariola?

– Claro que não! Isso é um absurdo!

– Mas por quê?

– Ora, eu não tenho tantas jujubas pra te dar de troco!

***

Enquanto isso, um papagaio que a tudo presenciava virou-se para a madame ao lado e disse, consternado:

– Não acredito que perdi meu tempo prestando atenção nisso pra tudo acabar assim.

– Acabar como? – perguntou a madame.

– Assim.

 

nov 032016
 

 

mussarela

 

A lanchonete estava lotada, e por isso Bolívar se achou com sorte quando viu a mesa vaga no meio do apertado salão. Como os assentos eram todos muito próximos, ele pediu licença aos rapazes que estavam ao lado antes de se sentar, evidenciando seus modos de homem interiorano de meia idade.

Um desses moços vestia uma camisa verde, tinha barba rala e era baixo. O outro tinha pele bem clara, usava camisa polo azul e também tinha pouca barba. Ambos usavam botons de apoio à candidatura a um político engajado. E os dois estavam de mão dadas sobre a mesa.

Bolívar reparou nos rapazes, mas não se incomodou em dividir o espaço com o casal. Por estarem sentados tão próximos era possível ouvir que os moços conversavam normalmente sobre praia e faculdade, e Bolívar percebeu que não falavam nada de diferente de outros casais em um final de dia no Rio de Janeiro.

O garçom chegou rapidamente e anotou os pedidos de todos de uma só vez: dois pedaços de pizza de mussarela para os rapazes; um pedaço de pizza portuguesa para Bolívar. Os moços pediram suco, já o senhor, uma caneca grande de chopp.

Enquanto aguardava ser atendido, Bolívar refletiu como o mundo havia mudado nesses anos todos. Antigamente seria impossível que dois homens externassem ser um casal. E antes, certamente, ele teria se escandalizado com a situação. Mas agora ele estava na Cidade Maravilhosa e aprendia cada vez mais a conviver com a diversidade.

Para uma pessoa que sempre se definiu como um brucutu, não ter se importado com os rapazes gays era um grande avanço, e por isso Bolívar sentiu orgulho de si mesmo ao constatar seu progresso. Se até ele era capaz de respeitar as diferenças, quem sabe não haveria um momento em que todos pudessem ser mais tolerantes uns com os outros?

Enquanto divagava, os pedidos chegaram. Bolívar bebeu um longo gole de chopp e solicitou que o rapaz da camisa polo lhe passasse o azeite. Nesse momento, porém, o homem viu algo que o deixou transtornado e o fez levantar abruptamente. Enojado, disse rudemente para os rapazes:

– A minha tolerância tem limites!

O homem nascido no interior aprendera a respeitar as pessoas, por mais diferentes que fossem, mas ainda não estava pronto para presenciar a terrível imagem do rapaz da camisa verde colocar maionese e ketchup na pizza de mussarela.

Traumatizado, foi embora do Rio e nunca mais voltou.

 

 

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jul 122016
 

 

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Desde que nasceu, existiam duas certezas na vida de Vitorino: a morte, que a todos alcança; e o trabalho na oficina mecânica, tradição familiar que os Calibri diziam ter começado antes mesmo da invenção do automóvel.

Tradições eram coisas sagradas, não só para a família de Vitorino, mas para todos na pacata cidade de Bramantoque. Os cidadãos cuidavam de seus costumes com muito orgulho e dedicação, e a solução dada à celeuma sobre o nome do município ilustra bem isso.

Como todos os munícipes sabiam, Bramantoque era uma palavra tupi-guarani que significava “pedra branca”. Certa feita, porém, um professor atestou, depois de muito pesquisar, que aquela não era uma palavra indígena, e que não tinha significado nenhum. Chocada com a revelação, a população se reuniu com os vereadores, os vereadores se reuniram com o prefeito, e o prefeito procurou pelo professor para então expulsá-lo da cidade e levar consigo seus livros, artigos, pesquisas e tudo mais para o amãtiti que o parta.

Depois que o pobre estudioso foi embora ninguém mais tocou no assunto, e na praça central foi instalada com muita pompa uma estátua de um índio sentado em cima de uma pedra. Uma pedra branca, claro.

Vitorino passava por aquele monumento todos os dias, e sempre que via aquele índio empacado lamentava seu próprio destino. Sentia que sua vida era como a pedra, que estava incrustada naquele lugar sob o peso de outras vidas.

O jovem não queria ser mecânico como todos da família Calibri. Ele, na verdade, queria ser estilista.

Vitorino gostava de moda, e sonhava trabalhar com alta costura, em meio a roupas, modelos e fotógrafos, dando vida aos vestidos que à noite desenhava escondido em seu quarto. Certamente o rapaz era o único naquela cidade que sabia o que significava prêt-à-porter, e tinha certeza que qualquer outro bramantoquense diria que se trata de outra palavra indígena.

Nesse momento você deve estar pensando “hmm… então Vitorino era…” Pois te digo uma coisa: não era. Ou talvez fosse, não sei. Na verdade, isso não tem importância nenhuma. O problema não estava no que ele era, mas sim no que ele gostaria ser.

Foi numa noite de verão, após o jantar, que Vitorino resolveu contar à família que não queria mais trabalhar na oficina, e que pretendia estudar na capital. Ninguém retrucou, e o silêncio que se fez à mesa foi pior do que se seu pai tivesse lhe dado um tapa. Depois que foram deitar o rapaz demorou a conseguir dormir, pois era incomodado pela sua mãe soluçando em prantos no quarto ao lado.

Assim que acordou no dia seguinte, recebeu a visita do pastor da cidade, que fora convidado por seu pai para o café da manhã.

Após o almoço, veio o padre, chamado por sua mãe para o café da tarde.

À noite, o próprio prefeito veio jantar.

Todos os convidados falaram sobre tradição e família. Todos recitaram sobre o destino e sobre a vontade de Deus. Todos exaltaram o valor dos costumes e a importância da profissão de mecânico. Ninguém perguntou o quê Vitorino desejava.

Exposto à tanta pressão, Vitorino cedeu. Esqueceu seus planos e se rendeu ao que todos esperavam dele. Nunca se tornou um bom mecânico, mas para o pai bastava que ele estivesse na oficina todos os dias, como estiveram o avô e os homens que o antecederam.

Sim, esta não é uma história de superação e de final feliz, e eu sei que é chato saber sobre alguém que não vive seus próprios sonhos.

Talvez o amargor desta narrativa sem graça se torne menor se eu te contar que, às vezes, a estátua do índio amanhece coberta por vestidos coloridos feitos à mão, e que até hoje ninguém em Bramantoque descobriu o autor daquelas peças de tanto bom gosto.