jul 272017
 

 

Certa vez, em um 27 de julho, eu estava com o carro parado na rotatória quando uma van atravessou a preferencial e acertou uma Kombi que voltava da feira. A Kombi foi arremessada contra o meu veículo, que foi atingido sem que eu pudesse ter qualquer reação. Os peixes que o feirante levava se espalharam pela rua, e um deles repousou melancolicamente sobre o meu para-brisa.

Em outra oportunidade, na mesma data, eu ganhei na Mega Sena. Como foi apenas com uma quadra, e tinha feito a aposta num bolão, o dinheiro não deu para quase nada.

Quando eu era moleque, eu fui perseguido, num 27 julho, por todos os outros moleques da rua Santa Cecília. Não adiantou eu tentar me esconder em casa, eles vieram atrás de mim sem qualquer cerimônia, e me alvejaram com um ovo quando eu tentava pular a janela do quarto dos fundos. Um ano depois, tentei fugir escalando a área de serviço, mas fui cercado pelos meninos que me aguardavam do lado do muro. Ovo de novo.

Num domingo, 27 de julho de 1986, Adilson Maguila Rodrigues enfrentou o argentino Daniel Falconi numa revanche. Nocaute para o brasileiro. Eu assisti a luta sentado entre meu pai e meu avô.

Nesse mesmo dia, mas em outro ano, assamos pizza na área grande. Estava frio, era um dia de semana, mas foram todos os meus tios, primos e amigos, e naquele dia fui dormir me sentindo prestigiado e privilegiado.

Há alguns anos atrás, num 27 de julho, teve um show de uma banda cover dos Beatles, em São José dos Campos.

Graças ao dinheiro que ganhei num ano, comprei o Dois, do Legião Urbana. Em outro ano, o Psicoacústica do Ira!, um discão, como já contei aqui.

E teve um 27 de julho, há muito tempo atrás, que eu nasci.

 

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out 112016
 

 

dois

 

Você se lembra como foi seu dia 20 anos atrás?

Geralmente não sei nem o que fiz ontem, mas daquela sexta-feira, 11 de outubro, eu não me esqueço: estava almoçando no Restaurante Universitário quando me contaram sobre a morte do Renato Russo. Desisti então de passar a tarde na biblioteca da faculdade e resolvi voltar para a república, que ainda era aquela na rua Prudente de Moraes. Cheguei a tempo de ver o Jornal Hoje e as várias reportagens que seguiram pelo dia, inclusive a do jornal Aqui Agora, com um texto banal e desinformado narrado sobre as imagens do clipe de Strani Amore.

“DOIS” foi o primeiro disco que comprei na vida, com o dinheiro que ganhei do meu avô como presente de aniversário. “MÚSICA DE ACAMPAMENTO” comprei para dar de presente de Natal, mas ao chegar em casa resolvi que ficaria com o disco para mim. “AS QUATRO ESTAÇÕES” eu tinha em fita K7, copiado do LP que meu primo ganhou de amigo secreto  – naquela mesma oportunidade eu ganhei uma fita com os maiores sucessos da Joana. Sério. “V” tem “Metal Contra as Nuvens”, que embalou a primeira grande dor de cotovelo que tive na vida.  “O DESCOBRIMENTO DO BRASIL” eu comprei no Carrefour. Também em fita em tive o primeiro LP (“LEGIÃO URBANA”) e “A TEMPESTADE” foi o primeiro que adquiri em CD.

Apesar desses discos todos, eu não poderia ser chamado de um verdadeiro fã. Nunca tive um pôster na parede, e deixei de ir aos shows quando tive oportunidade por achá-los caros demais. Também não acompanhava tudo sobre a banda e não sabia que Renato estava tão doente, por isso a minha surpresa com a notícia da sua morte.

Eu já disse alguma vez que “Tempo Perdido” é a grande música da minha geração. Impossível ouvi-la sem lembrar de coisas, de pessoas e histórias que se perderam pelo… tempo. E muitas outras músicas da Legião ainda mantém o apelo original, mesmo com as patacoadas que os membros sobreviventes têm realizado.

Não é possível saber como estaria Renato Russo hoje. Seria o grande porta voz das novas gerações? Seria um velho chato e amargurado como o Lobão? Estaria fazendo shows em festivais agropecuários cantando as mesmas canções do passado? Seria coxinha? Ou mortadela? O que temos como fato é que a Legião se mantém relevante e atual, o que é instigante e assustador. É só ouvir “Perfeição” para nos darmos conta de como ainda é impossível responder que país é esse.

Apesar dos vinte anos, a máxima ainda vale: Urbana Legio Ominia Vincit.

 

 

 

set 212016
 

 

figurinhas-copa

 

A Santa Terezinha é uma rua que inicia plana, mas depois de uns trezentos metros começa a subir de um jeito que me cansa só de lembrar. A escola ficava ainda nessa parte baixa, de fronte a uma outra via em que até hoje às quintas acontece a feira livre do bairro. Todas as ruas próximas terminam em morros, e quase todos nós morávamos no alto, então ir para a aula era sempre mais fácil que voltar para casa, o que não me impedia de chegar sempre atrasado.

Mas eu morei próximo à escola apenas nos primeiros meses de aula. Em setembro, no feriado do dia 7, nos mudamos para a rua Santa Cecília, e embora estivesse mais longe nunca mais perdi a hora: o motorista da Kombi que me levava era nosso vizinho e eu era o primeiro a embarcar e o último voltar para casa.

Era 1982. Ano da Guerra das Malvinas, da Copa da Espanha e da primeira série C com a professora Vera, no Centro Educacional Sesi nº 160.

Antes das aulas, nos dias mais quentes, íamos buscar água que saía de uma bica incrustrada no quintal de um dos vizinhos da escola. A água era fresca e cristalina, de um jeito que hoje é impossível conseguir em pleno centro da cidade.  Com as garrafinhas das lancheiras abastecidas, aguardávamos o sinal para fazer fila e entrar na sala de aula trocando figurinhas dos álbuns do chiclete Ping Pong. As coleções das Copas de 82 e 86 e da Fórmula Um faziam tanto sucesso com a molecada quanto com os dentistas.

O pátio da escola era um pouco maior do que uma quadra de vôlei, único esporte que se praticava nas aulas de educação física (também havia o mini-vôlei, que os meninos jogavam com bolinhas de papel ensacadas em embalagens de pipoca, numa rede improvisada entre os mastros das bandeiras, mas isso era atividade extracurricular, assim como o pega-pega, o cinco-corta, a competição de aviões de papel, etc.). O chão da quadra era de cimento crespo, o que proporcionava maior emoção a cada tombo, mas isso não nos impedia de correr e pular o tempo todo.

Eu e alguns outros garotos aprendemos a jogar vôlei de verdade no Esporte Clube Elvira, e isso favoreceu o crescimento de uma rivalidade com o pessoal mais velho, que se formaria em 1988. Tenho certeza que os maiores jogos do esporte mundial foram travados naquela quadra cimentada do Sesi, pois já disse o poeta que nenhuma partida foi mais bela do que aquelas que ocorreram na minha aldeia (ou algo assim).

As meninas sempre foram mais maduras que os meninos, tanto emocional quanto fisicamente. Isso promoveu alguns desencontros amorosos nunca remediados: enquanto elas se espelhavam na Madonna e suas polainas e começavam a “gostar” dos garotos, nós só queríamos ter um carro igual a Super Máquina e jogar Atari para chegar ao fim do River Raid. Quando então passamos a gostar delas, elas só queriam saber dos caras mais velhos, e assim rivalidade cresceu para além das quadras, chegando aos bailinhos que tinham dança da vassoura e ponche de frutas.

Antes da hora do recreio, saíamos da aula para a merenda, trazida da Cozinha Piloto e servida pela Dona Isabel e pela Dona Maria em pratos de alumínio e canecas de plástico. Achocolatado, sopa de macarrão, sopa de macarrão com caldo de feijão, canjica, pão com salsicha. O cardápio era limitado e talvez sem grande valor nutricional, mas não éramos exigentes.

A escola tinha apenas 8 salas de aula, a cantina, a direção, os banheiros e uma oficina, aonde éramos introduzidos aos ofícios da cerâmica e da madeira. Era um prédio velho e todos os móveis escolares também eram antigos. Durante vários anos estudei em grandes carteiras de madeira e ferro, aonde sentávamos em duplas, e o cheiro daquelas salas ainda sobrevive em um canto qualquer da memória.

A memória, aliás, me prega peças. Recordo de conversar na porta da oficina com o Robson sobre Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, mas essa música só foi lançada em 1991, depois que eu já tinha perdido o contato com esse amigo que nunca mais vi.

Pouco depois que me formei na oitava série, em 1989, o Sesi construiu instalações novas com salas e móveis modernos, além de quadras de verdade, piscina e campos de futebol. O prédio em que estudei hoje abriga uma outra escola, mas aquele mundo ficou lá atrás, num outro século, numa vida tão diferente que só existe em fotos de baixa resolução e em lembranças embaralhadas pelo tempo.

 

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Centro Educacional SESI nº 160

Jacareí, 21 de setembro de 2016

Hoje o dia está nublado.

 

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Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (I)

Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (II)

 

 

 

 

 

 

 

abr 252016
 

 

 

Quando Michael Jackson morreu eu enviei um email para muitos amigos, para falar do tempo que passou desde que o Rei do Pop dançou o moonwalk e de como nos transformamos nesse período, e essa mensagem acabou de certa forma gerando a ideia de ter um blog. Nunca fui fã do Michael, mas ele sempre esteve presente em nossas vidas, mesmo que não percebêssemos.

A morte de Prince igualmente entristece quem viveu os anos 80. Também não era fã d’O Artista, mas When Doves Cry era onipresente nos programas de videoclipes de TV, Kiss tocava na New Wave e em todas as danceterias do mundo e não havia festa sem Purple Rain para fazer os casaizinhos dançarem. Isso sem falar de Nothing Compares 2 U, que fez sucesso com Sinead O’Connor, mas foi composta pelo Prince.

Talvez os jovens não tenham se dado conta de quem ele foi, mas Prince fazia parte do grande triunvirato da música pop, juntamente com Madonna e Michael Jackson. Foram as escolhas extravagantes que fez na carreira que acabaram por afastá-lo das novas gerações, mas para quem quiser saber sobre sua história e sua relevância sugiro este texto,  que é melhor do que qualquer coisa que eu possa escrever.

O que me importa é que outro representante da minha infância/adolescência se foi. E mesmo que eu não tenha nenhum disco do Prince em casa, acho que, de alguma forma, sou quem sou porque um dia ouvi Batdance e festejei como se fosse 1999.

 

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Bruce Springsteen homenageou Prince cantando Purple Rain. Ficou foda:

 

 

Honey, I know, I know
I know times are changing
It’s time we all reach out
For something new, that means you too
You say you want a leader
But you can’t seem to make up your mind
I think you better close it
And let me guide you to the purple rain

 

 

jan 262016
 

 

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“Tempo é relativo”, me diz o Óbvio, sentado ao meu lado enquanto escrevo estas linhas.

Já se passaram muitos dias desde a última postagem e ele está aflito, esperando ser alimentado. Tenho me contido durante esse período para não me render ao seu chamado, mesmo que seja tentador e às vezes coberto de razão.

Em relação à relatividade do tempo, por exemplo, ele está certo: ontem fez 21 anos desde aquele show do Lulu Santos do Ibirapuera mas parece que foi… ontem. Minhas férias inteiras duraram menos que as horas que sentei em frente ao computador depois que voltei ao trabalho.

Mas tenho lutado para não me render ao Óbvio e seu sorriso vazio de satisfação. Por mais que ele continue a me espreitar a cada bate-papo, a cada mensagem trocada, a cada olhada no Facebook, aguardando pacientemente minha resposta a um comentário qualquer.

Essa minha resistência, todavia, tem causado o hiato nas postagens e algum ressentimento. O dia mais emblemático foi quando David Bowie morreu.

Assim que soube da morte do cantor o Óbvio ficou ululante. Abriu o notebook e leu cada comentário sobre a genialidade artista rindo de si mesmo, enquanto aguardava a minha participação no rol de homenagens sem fim. Ele sabia que sou fã do Bowie e que isso certamente renderia um post consagrador a ele (consagrador ao Óbvio, quero dizer).

Mas minha decisão de não escrever por entender que não haveria algo original para postar foi um golpe duro, que o deixou decepcionado comigo. Depois de tantos anos enriquecendo suas fileiras, o Óbvio se sentiu traído pela minha atitude.

Aos poucos, porém, vejo que ele está se recobrando e se sentindo mais forte, mais confiante. Ambos sabemos o porquê. É certo que, por mais que eu tente, cedo ou tarde não resistirei aos seus apelos e voltarei a colaborar com ele.

Quando digo “com ele” me refiro ao Óbvio, claro.

 

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dez 212015
 

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Mesmo descalço, ele decidiu seguir pela estrada de cacos de vidro.

Embora não soubesse aonde poderia chegar, a canção dizia que a vida é a jornada e não destino, então ele foi em frente. Às vezes os pés doíam, alguns cacos eram grandes e machucavam muito, mas o caminho recompensava cada passo.

Ele viu paisagens até então desconhecidas. Encontrou pessoas e lugares novos. Provou coisas que jamais sonhara e então imaginou que jamais deixaria o caminho.

Mas, após uma curva, a surpresa. Um caco grande demais machucou os pés desgastados. A ferida sangrou e foi preciso parar. Não havia como prosseguir naquelas condições.

Sentado à beira da estrada, ele se perguntava: depois que se se entra em uma rota sem volta, o quê fazer quando não se tem mais para onde ir?

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out 072015
 

 

 

mario baccaro

 

 

Durante a vida toda Mario teve que explicar que a pronúncia de seu nome era bácaro, e não bacáro, como habitualmente as pessoas falavam. Ele dizia que embora a ortografia da língua portuguesa exigisse um acento nas palavras proparoxítonas, Baccaro é um nome italiano herdado do seu pai, Pedro, um alfaiate que imigrou para o Brasil no começo do século XX.

Pedro se estabeleceu em Jacareí e se casou com a bela Maria Emília, que morreu ainda jovem após gerar cinco filhos, todos homens. Mario, nascido em 15 de abril de 1922, tinha cinco anos de idade quando a mãe faleceu, e junto com os irmãos foi criado apenas por seu pai, que se recusou a casar novamente por jamais se esquecer de sua mulher.

A infância passada na casa na rua XV de Novembro foi difícil, mas os Baccaro formavam uma família feliz e unida. Entre as brincadeiras e os estudos, Mario foi acolhido aos 12 anos pelo Tiro de Guerra como mascote, certamente sem suspeitar que um dia pegaria em armas de verdade para combater um inimigo longe de sua casa.

Mario foi aluno da primeira turma da Escola Agrícola de Jacareí, e estudava para ser agricultor em Santo Antônio do Pinhal quando recebeu a convocação para se juntar ao 6º Batalhão de Infantaria do Exército, situado em Caçapava. O homem da lavoura, que gostava de jogar “bola ao cesto” e que tocava pandeiro no conjunto Fila Bóia, foi ser soldado para guerrear na Europa.

De Caçapava foi para o Rio de Janeiro, e de lá partiu para a Itália, num navio que corria o constante risco de ser afundado pelo inimigo e no qual faltavamm alimentos e até mesmo água doce.

Dentro da embarcação os pracinhas cantavam a Canção do Expedicionário, que dizia: “Por mais terras que eu percorra/Não permita Deus que eu morra/ Sem que eu volte para lá”. Pois Mario, além de querer voltar à terra do biscoito, desejava também retornar para Alzira, mulher que se tornaria sua esposa pouco após o fim da guerra e com quem viveria até os fins dos seus dias.

Na Itália Mário teve que enfrentar o rigor do inverno e a valentia dos alemães. Todavia, se o frio era algo novo para o alguém que nunca havia deixado o Brasil, em termos de bravura o jacareiense nada deixava a dever aos tedescos. Sua conduta durante a guerra foi tão destacada que foi condecorado por seus atos e o levou a ser citado no livro Histórias da História do Brasil, que conta como o franzino soldado Baccaro, “que poderia estar namorando em um jardim da cidade de Jacareí”, fez correr mais de 40 soldados da temida divisão SS.

As histórias de companheirismo, sacrifício, glórias e perdas marcaram o pracinha por toda sua vida. Mario sempre teve orgulho dos amigos que fez no quartel, mas jamais se gabou por seus atos heroicos. Ele se considerava um homem do campo, e não um guerreiro, e por isso os causos da roça lhes causavam mais felicidade que as memórias da guerra.

Ao retornar ao Brasil, Mario tentou se estabelecer na agricultura, mas Jacareí já começara a transformar-se para deixar de ser uma cidade agrícola. Tornou-se então servidor público federal, e assumiu um cargo nos Correios, tendo ocupado postos em Santa Isabel, Pedra Bela e em na sua terra natal, aonde se aposentou.

Do casamento com Alzira Fontes teve quatro filhos: Nelson, Mario, Terezinha e Dagoberto, e estes lhes deram sete netos: Carlos Frederico, Wagner, Roberto, Ana Alzira, Carolina, Mariana, Mariozinho, além de Marcos, que foi criado como se neto fosse.

No final dos anos setenta construiu a primeira casa da Avenida Pensilvânia, no Jardim Flórida, e lá morou até 1999, ano em que faleceu.

A nomeação de uma via em homenagem ao Exp. Mario Baccaro é uma justa medida desta cidade em favor de um de seus filhos ilustres. Certamente as pessoas que passarão pela rua mencionarão o sobrenome Baccaro de forma equivocada, mas isso não importa. O que é relevante de verdade é que saibam que o homenageado foi um pracinha heroico, um servidor público destacado, um agricultor por vocação e um pai e avô dedicado e carinhoso, que sempre teve orgulho de suas raízes jacareienses.

 

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Mario Baccaro, meu avô, agora empresta seu nome para uma rua de Jacareí.

 

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maio 262015
 

 

Série Graphic Novel #02 Demolidor

 

Nos meus tempos de moleque, o Demolidor era o Sawamu dos desenhos japoneses.

O Demolidor dos quadrinhos americanos eu só conheci no começo da adolescência, depois que li O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. O sucesso da revista daquele Batman soturno foi tão grande que a Editora Abril passou a publicar histórias mais caprichadas e com temática mais adulta na série Graphic Novel, que trazia bimensalmente uma nova edição com personagens e estilos diferentes.

Não por coincidência, o número 2 trazia uma outra HQ de Frank Miller, dessa vez desenhada pelo magistral Bill Sienkiewicz, e cujo personagem era o Demolidor, o herói cego que veste um uniforme de diabo (no original o personagem se chama Daredevil) e combate os criminosos de Nova York.

Comprei meu exemplar na banca de revistas que ficava em frente ao Supermercado Dias, gastando todos os duzentos cruzados que ganhei por lavar o carro do meu pai, e acho que mais um parafuso da minha cabeça caiu após a leitura. A arte era completamente diferente de tudo que eu conhecia – tinha colagens, pintura, grafismo, psicodelia e enquadramentos fora do padrão que realçavam os delírios do vilão psicopata.

 

Daredevil by Bill Sienkiewicz,o vilão

 

Mas apesar da edição caprichada e dos desenhos sensacionais, confesso que a revista me deixou desapontado pela “falta de ação”. Eu era jovem e queria ver o Demolidor quebrando a cara de todos os bandidos, por isso não contava com uma história em que o herói tivesse uma participação mais secundária na resolução da trama.

No final de semana passado tirei a revista da caixa em que repousa junto com centenas de outras HQ’s e reli a história com mais prazer do que tive anos atrás. Agora, mais maduro e vivido, pude compreender melhor as nuances do texto que complementa aquela arte tão única.

 

MARVEL'S DAREDEVIL

 

Meu interesse em reler a história após tanto tempo nasceu depois de ver a série do Demolidor, produzida pelo Netflix.

Trata-se de uma adaptação para televisão muito boa. A essência do herói foi mantida, assim como as dos coadjuvantes. Muitas das ideias dos quadrinhos foram utilizadas, e as “liberdades” tomadas funcionam bem, embora algumas tenham me causado espanto (como deixei de acompanhar as HQ’s faz tempo, pode ser que a morte de determinado personagem não seja algo verdadeiramente novo).

Achei muito interessante mostrar a iniciação de Matt Murdock como herói mascarado ao longo dos treze episódios, sem que houvesse pressa em vesti-lo no uniforme. Quase todas as críticas que vi elogiaram a série, e em apenas um texto o autor reclamava da “falta de coerência” com os quadrinhos em razão do herói ter se exposto demais para resgatar uma criança no segundo episódio. O insatisfeito reclamou que, para privilegiar a ação, o personagem abriu mão da inteligência que habitualmente usava em suas histórias.

Ora, o Demolidor da série, que ainda nem usava esse nome, é justamente um herói em construção, aprendendo com os próprios erros e em busca de uma causa e uma identidade. Dada a sua inexperiência, seria mesmo natural que no início de carreira usasse os punhos em detrimento do cérebro.

É preciso amadurecer com os anos para aprender que quebrar a cara de todos os bandidos nem sempre é o que torna alguém um herói (ou uma história) especial.

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