Wagner

set 212017
 

 

 

As portas se abrem e todos deslocam seus olhares à noiva, que aparece trajando um belíssimo vestido branco e um sorriso tenso e largo. Todos se levantam e os músicos começam a cantar à capela. Nesse momento, ao lado do altar, um dos padrinhos começa a cochichar para o noivo:

– Putz, essa música, agora, não!

– Por quê?

– Essa música me lembra sacanagem.

– Cara, tá tocando Ave Maria, de Schubert!

– É, eu sei, é essa mesmo.

– Você tem que ser muito pervertido pra pensar em sacanagem enquanto toca Ave Maria!

– Ou a sacanagem é que foi muito boa.

– Ah, qual é? Isso não é hora de brincadeira.

– Não estou brincando não. Você sabe que eu não sou de me gabar mas…

– Mas é isso que você está fazendo bem agora, se gabando durante o meu casamento!

Uma das madrinhas faz “psiu”, cobrando silêncio. Os dois se calam para observar a noiva, que ainda não tinha chegado ao meio da nave. Lágrimas emocionadas escorrem de alguns rostos, borrando instantaneamente maquiagens que foram produzidas durante horas. Cada passo dado com vagar faz os fotógrafos trocarem de posições, encenando uma estranha coreografia. O noivo então cochicha para o padrinho:

– Conta aí.

– O quê?

– Conta aí qual foi a sacanagem.

– Não posso.

– Por quê?

– Estamos numa igreja, não posso falar disso.

– Não quer falar, mas você está pensando nisso, né?

– Sim! – A confirmação vem acompanhada de um largo sorriso.

– Filho da …

– Shiiii! – A mesma madrinha volta a interromper a conversa, agora olhando de forma firme para ambos.

A noiva continua vagarosamente, e seu pai, que caminha ao seu lado todo orgulhoso, faz mais pose para as fotos do que a própria estrela do evento. Cada novo flash, um sorriso diferente. O noivo volta a inquirir o padrinho:

– Quem sabe dessa história?

– Ninguém! Quase contei para o padre Antônio, mas desisti.

– Você ia falar para o padre de uma sacanagem sua?

– Eu ia me confessar.

– Confessar? Mas você nem é católico!

– Pra você ver o tamanho do pecado!

– Foi com a Lavínia?

– Também!

– Como?

O noivo encara o padrinho por instantes, perplexo, até que recebe um cutucão. A noiva já tinha chegado ao altar e olhava de forma atravessada, indignada com a falta de atenção do seu futuro marido. Ele então sorri, recebe a mulher do sogro, e se encaminha até o padre, que celebra a cerimônia e os declara marido e mulher.

***

Os recém-casados já receberam os cumprimentos e agora se sentam em uma mesa no salão em que realizam sua festa. A esposa aproveita o breve momento de calmaria para perguntar ao marido:

– O que foi aquela conversa no altar com o Parini?

– Ele me deixou curioso com uma história justo na hora que você estava entrando. Falou que a Ave Maria o fez lembrar de uma sacanagem, veja só!

– Ah, é?

– Cara sem noção. No momento que toca a música que a noiva escolheu para marcar um momento da vida, ele começa a lembrar de besteira!

– Desencana, amor! Deixe pra lá, agora não é hora disso! Espere um minutinho, vou tirar uma foto com a Lavínia e já volto.

– Aproveite e pergunte pra ela, vocês conversam sobre tudo mesmo! Eu não me importo em ser um último a saber.

– Que bom que não se importa, amor – e sorri a noiva, de um jeito diferente de todos os outros sorrisos que deu naquela noite.

 

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jul 272017
 

 

Certa vez, em um 27 de julho, eu estava com o carro parado na rotatória quando uma van atravessou a preferencial e acertou uma Kombi que voltava da feira. A Kombi foi arremessada contra o meu veículo, que foi atingido sem que eu pudesse ter qualquer reação. Os peixes que o feirante levava se espalharam pela rua, e um deles repousou melancolicamente sobre o meu para-brisa.

Em outra oportunidade, na mesma data, eu ganhei na Mega Sena. Como foi apenas com uma quadra, e tinha feito a aposta num bolão, o dinheiro não deu para quase nada.

Quando eu era moleque, eu fui perseguido, num 27 julho, por todos os outros moleques da rua Santa Cecília. Não adiantou eu tentar me esconder em casa, eles vieram atrás de mim sem qualquer cerimônia, e me alvejaram com um ovo quando eu tentava pular a janela do quarto dos fundos. Um ano depois, tentei fugir escalando a área de serviço, mas fui cercado pelos meninos que me aguardavam do lado do muro. Ovo de novo.

Num domingo, 27 de julho de 1986, Adilson Maguila Rodrigues enfrentou o argentino Daniel Falconi numa revanche. Nocaute para o brasileiro. Eu assisti a luta sentado entre meu pai e meu avô.

Nesse mesmo dia, mas em outro ano, assamos pizza na área grande. Estava frio, era um dia de semana, mas foram todos os meus tios, primos e amigos, e naquele dia fui dormir me sentindo prestigiado e privilegiado.

Há alguns anos atrás, num 27 de julho, teve um show de uma banda cover dos Beatles, em São José dos Campos.

Graças ao dinheiro que ganhei num ano, comprei o Dois, do Legião Urbana. Em outro ano, o Psicoacústica do Ira!, um discão, como já contei aqui.

E teve um 27 de julho, há muito tempo atrás, que eu nasci.

 

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jun 072017
 

 

 

“Que pena… quando você sair daqui, nunca mais vai pensar em mim”.

Laura estava sentada no lado oposto ao do homem de terno cinza e gravata amarela. Seus olhares já haviam se cruzado algumas vezes, e o discreto sorriso que ele deu fez o rosto dela se avermelhar de vergonha. Ela era tímida, mas flertar com aquele estranho no metrô era algo que não podia resistir.

O homem era muito bonito. Alto, com rosto esguio e barba bem aparada, sentava-se de forma elegante e pouco desviava os olhos do que estava à sua frente. Parecia estar absorto em pensamentos profundos e graves, o que conferia ao sorriso dado um verniz ainda mais especial.

O metrô estava ainda vazio, comum para aquele horário do meio da manhã. Uma turma estudantes entrou no vagão falando alto, chamando a atenção como os garotos bobos tanto gostam de fazer. Uma mulher segurava uma sacola cheia de produtos de supermercado. Um outro homem de terno, não tão bonito, estava de pé, embora muitas poltronas estivessem vagas. Laura sentava-se de costas para a janela, e às vezes olhava para celular, ajeitava o livro e a pasta que carregava no colo, mexia nos cabelos avermelhados que escorriam por trás das orelhas e voltava a espiar aquele que imaginou se chamar Jonas.

“Ele tem cara de Jonas”.

Ela não sabe por quê pensou nesse nome, que achou que combinava com o que parecia ser um advogado indo atender um poderoso cliente. Ou com um renomado executivo que iria tratar de negócios milionários em uma importante reunião. “Mas rico ele não é. Rico no Brasil não usa metrô. Ele ainda vai ficar rico!”.

Tentou adivinhar quantos anos o homem teria. “Entre trinta e trinta e cinco”. Imaginou Jonas apresentando relatórios sobre balanços financeiros altamente positivos para uma mesa de senhores e senhoras sisudos. Em certo momento, ele faria uma tirada espirituosa e daria um discreto sorriso, fazendo todos balançarem a cabeça por admiração à sua inteligência e ao seu charme.

Pensou também em como ele seria falando perante um tribunal. Com o dedo em riste e voz firme, mas sem perder a pose, apresentaria seu argumento inquestionável que emudeceria a plateia, convenceria os jurados e conquistaria todos os corações.

Só depois que o trem voltou a se mover que Laura parou com seus devaneios e percebeu a mulher que entrou na última estação. “Que perua!”, pensou ela, sem admitir que se tratava de uma moça belíssima, usando uma roupa que torneava o corpo sem deixá-la vulgar. Todos que estavam no vagão olharam para aquela mulher, e homem de terno que estava em pé até mudou de posição para enxergar melhor.

O incômodo daquela presença se tornou ainda maior quando Laura flagrou Jonas olhando para a moça. “Sério?”. Em milissegundos, sentiu indignação, inveja, ciúme, desprezo. Fez-se de desinteressada antes que voltasse a olhar para o homem que voltava a fitar para a frente de forma impávida.

Foi então ela percebeu que o homem que estava de pé acompanhava a situação toda e também sorriu, mas de forma cúmplice. Laura voltou a ruborizar, imaginando que todos os seus pensamentos sobre Jonas e a Biscate (foi esse o nome que ela deu para aquela mulher bonita) serviam de divertimento para um estranho.

Dos alto-falantes do vagão saiu o anúncio da próxima parada, e era vez de Laura descer. Ela se levantou, rumou até porta e olhou uma última vez para Jonas, que acompanhou sua saída e deu um último sorriso com o canto da boca.

Laura desceu do trem equilibrando os materiais de estudo, a pasta e o livro, procurou pela saída, enroscou-se na catraca com uma senhora de cabelos arroxeados e deixou a estação preocupada com o horário e com a chuva que parecia estar por vir.

Na rua, seus pensamentos foram tomados pela cidade e suas distrações, e então ela se esqueceu de Jonas para sempre.

 

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abr 262017
 

 

 

Das três companheiras de caminhada, Pérola era a mais falante. Desinibida por natureza, fazia a alegria de Ágata, que muito ouvia e pouco se manifestava, e de Safira, que estava sempre um passo atrás, tanto no trajeto quanto na conversa.

Pérola contava suas histórias, sobre a própria vida e sobre vidas alheias, com exageros e trejeitos que deixavam tudo mais divertido. Ágata sorria de forma discreta, e às vezes olhava de soslaio quando a narrativa ganhava tons inacreditáveis. Já Safira de tudo ria desbragadamente, mesmo quando não entendia muito bem qual era graça. Às vezes, aliás, era na sua própria lentidão para perceber as coisas que estava o mais engraçado de tudo.

As amigas caminhavam quase todos os dias bem cedo, cerca de cinquenta minutos, o que correspondia a uma volta completa em torno da lagoa. Estavam firmes na intenção comum de perder peso e ganhar saúde, objetivo esse que era rotineiramente sabotado pelos exageros cometidos na hora do almoço.

Naquele dia, no final do verão, uma nova colega se juntou ao grupo. Esmeralda já era conhecida, também queria entrar em forma, e foi recebida sem qualquer objeção.

Além de ser uma nova companhia, Esmeralda era o pretexto perfeito para Pérola fazer as duas coisas que mais gostava: recontar suas histórias e exibir Alfonso, seu namorado. Em vez de caminharem pela lagoa, Pérola sugeriu então que fizessem outro caminho, dando a oportunidade de mostrar às amigas a bela casa em que ele morava.

Como costuma acontecer nessas situações, porém, algo deu errado.

Logo após ter apontado para a grande casa azul, Pérola e suas companheiras viram a porta se abrir. Ao invés de Alfonso, quem saiu foi uma bela mulher loira, não muito alta, mas de corpo esguio e bem torneado.

Pérola tentou disfarçar e continuar a caminhada normalmente, mas em pouco tempo suas galhofas se tornaram mais raras, até sumirem totalmente. Ágata, que quase não falava, emudeceu de vez. Esmeralda ficou tão constrangida que teve vontade de ir para casa. E Safira só quebrou o silêncio quando pediu para as amigas andarem mais devagar.

Mais do que a traição, o que doía era a vergonha das companheiras terem presenciado a cena. Embora já tivesse tido muitas paixões, Pérola nunca chorou de verdade por homem nenhum, e Alfonso tampouco seria um alguém que valesse mais que duas noites de fossa. Todavia, ela via nele virtudes que compensavam o compromisso e estava entusiasmada com o que ele proporcionava.

O flagrante, porém, exigia uma atitude. Algo deveria ser feito para remediar aquela situação tão constrangedora. Talvez uma vingança. Talvez um escândalo. Talvez uma sova. Talvez tudo isso e algo mais a se pensar.

Pérola ponderou muito, e ao final adotou a solução que lhe pareceu mais prática: em vez de mudar de namorado, mudou de esporte. Deixou as companheiras de caminhada e começou a fazer hidroginástica. Afinal, aquela moça poderia ser uma prima de Afonso, por que não? E certamente seria mais trabalhoso arranjar um novo namorado do que novas amigas na piscina…

No final das contas, tudo se acertou. Esmeralda se firmou nas caminhadas, e assim se manteve como trio o grupo de amigas que se exercitava de manhã em volta da lagoa. Embora Pérola tenha dado algumas desculpas, elas guardavam certo ressentimento da colega pois era óbvio o verdadeiro motivo do afastamento.

Óbvio exceto para Safira, pois essa até hoje não entendeu nada do que se passou.

 

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abr 122017
 

 

 

“Quanto tempo faz? ”.

Caía uma chuva fina e a noite já estava alta, mas mesmo assim Carlos tirou o capacete para melhor observar a casa amarela de portões brancos. Era um imóvel simples, mas conservado com visível cuidado, que ficava numa pacata rua da cidade.

Enquanto ele tentava se lembrar de quando aquela estranha noite aconteceu, veio à sua mente a imagem de Amanda.

***

Moça de traços delicados que ressaltavam seus grandes olhos castanhos, Amanda tinha uma beleza que estava longe de ser exuberante, mas que cativava. Embora muito tímida, era tida como uma boa colega por seus companheiros de faculdade, e foi graças a um trabalho em grupo que Carlos se aproximou da moça.

Aos poucos o coleguismo se transformou em amizade, e a amizade virou namoro. O convite que ela fez a Carlos para que fosse uma noite jantar em sua casa foi então um passo firme ao um compromisso mais sério, o qual ele estava pronto a assumir.

O convite era ainda mais especial para Amanda. Sua mãe morrera fazia alguns anos e a partir disso ela se tornara mais reservada. Carlos seria o primeiro namorado a ser apresentado a seus familiares.

Carlos chegou pontualmente às 20h, parou sua moto em frente ao portão e tocou a campainha com certa apreensão. Amanda surgiu na porta e deu um sorriso largo, como não estava acostumada a dar, e abriu o portão apressadamente. Deu um beijo em Carlos e pediu que ele entrasse e deixasse a jaqueta e o capacete sobre a poltrona. Não houve tempo para continuar a se sentir incomodado: o pai de Amanda, Onofre, veio e lhe deu um abraço, e o menino Jonas também se mostrou um bom anfitrião.

À vontade, conversaram na sala até que o timer do forno tocou, avisando que a refeição estava pronta. Foi quando passaram à sala de jantar que Carlos viu que havia cinco pratos à mesa, o que o fez perguntar:

– Vocês estão esperando mais alguém?

Amanda voltou a sorrir sem graça, apontou para o lugar da mesa aonde Carlos iria ficar, puxou a cadeira e começou a explicar:

– Carlos, eu já te contei que nós somos espíritas, não foi?

– Sim, e eu te contei que eu ia num centro pra tomar passe de vez em quando.

– Pois é… Então, aqui em casa, todo mundo é médium também.

O rapaz arcou com o corpo para frente, se ajeitando melhor para o que viria em seguida.

– Meu pai psicografa mensagens. Meu irmão ouve os espíritos. E eu sou médium vidente. Eu vejo, mas nada ouço.

– E isso tem relação com o prato a mais na mesa por que…

– É a minha mãe, Carlos. Ela que está ali. De vez em quando ela vem e participa das coisas da casa conosco, e hoje ela fez questão de vir te conhecer.

– Sua mãe?

– Sim…

Desta vez foi Carlos que sorriu sem graça. Não deu continuidade ao assunto, mas ficou visivelmente incomodado com a situação. Às vezes mirava para o prato posto à mesa e a cadeira vazia, mas rapidamente desviava o olhar para os anfitriões, que perceberam o mal-estar da visita.

A conversa, que fluía naturalmente no começo da noite, passou a se tornar escassa. Carlos então apressou sua despedida dizendo que precisava dormir cedo e que tinha muito trabalho no dia seguinte.

Pegou suas coisas, deu um beijo em Amanda e foi embora com sua moto à toda velocidade.

 

***

 

Agora Carlos estava de volta ao portão, sem saber muito bem o motivo. Repentinamente, a porta se abriu e Amanda apareceu. Ele deu um passo para trás, mas assim que se virou para a rua pôde ouvir:

– Espere!

Ele parou e olhou para a moça, que chorava. Ele perguntou o porquê das lágrimas, mas ela somente abriu a porta e depois o portão, e pediu para que ele entrasse.

– Você sempre será bem-vindo aqui – disse ela.

Carlos entrou timidamente. Tirou a jaqueta e colocou sobre o mesmo móvel da outra vez. Ao colocar o capacete, todavia, percebeu a enorme rachadura no casco. Confuso, foi levado por Amanda até a sala de jantar, e lá estava sentada uma mulher com cerca de cinquenta anos, de olhos grandes e sorriso tímido, que disse com voz suave:

– Venha, Carlos, sente-se no seu lugar. Agora nós dois precisamos conversar.

 

 

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mar 072017
 

Jonas acordou num sobressalto.

Estava caindo de altura incomensurável, por um tempo infinito, até que despertou de súbito. Apesar de uma sensação incômoda, a rotina lhe era tão dominante que quando se deu conta já estava na rua, correndo para chegar ao metrô; para chegar ao trabalho; para passar o dia enclausurado; para voltar tarde; para dormir mal; e para acordar incomodado novamente na manhã seguinte.

O céu estava limpo e o clima era agradável, mas Jonas não percebia nada a sua volta. As pessoas passavam e ele não via, não notava. A única coisa que chamou sua atenção foi um zumbido no ouvido que começou repentinamente.

A princípio, ele achou que era do mal-estar que sentia, mas o barulho aumentava cada vez mais, fazendo que procurasse a origem do som até que visse nos céus a cena mais impressionante: centenas de aviões se aproximavam. Não, recalculou ele, talvez fossem milhares. Era uma quantidade absurda de aeronaves voando em formação.

Quando as primeiras passaram por sobre sua cabeça, em uma altura tão baixa que era possível ver claramente as pinturas na fuselagem, a surpresa deu lugar ao terror: eram antigos aviões de guerra de modelos e marcações variados.

Em um instante Jonas se deu conta do absurdo da situação, mas logo em seguida as bombas começaram a zunir nos céus enquanto caíam lentamente sobre a cidade.

Milhares de aviões, de repente, soltavam milhões de bombas.  E Jonas estava bem no centro de tudo.

O barulho foi tanto que de repente sumiu completamente – a cacofonia era ensurdecedora. A terra tremeu a ponto de jogar tudo o que estava sobre o solo para o alto. O céu escureceu e tornou-se negro de fumaça e poeira.

No meio do caos absoluto, o silêncio e a escuridão.

Jonas esteve no ar, caiu no chão, e foi jogado para cima novamente. Foram tantas e tantas vezes que pareceu ser algo interminável. E durante o tempo todo Jonas esteve consciente, sentindo e repetindo em todas as vezes as dores e agonia de cada impacto.

Quando as explosões cessaram, não havia nada em pé sobre a terra. Fogo, fumaça e pó era o que se via por todo lado.

Não era mais possível reconhecer ruas ou prédios naqueles escombros. Montanhas de entulho bloqueavam a vista para o horizonte e o céu sumira graças à fumaça. E não havia mais ninguém em lugar algum. Jonas era o único que restara.

Ele vagou sem destino por muito tempo até que se deu conta de que tudo era tão irreal que só poderia ser um sonho. Pensou então em acordar, mas nada ocorreu. Beliscou o próprio braço, mas sem resultado.

“Se não estou sonhando, só posso estar morto” – pensou ele – “Ninguém poderia sobreviver àquilo”.

Enquanto filosofava sobre a própria mortalidade algo vibrou no seu bolso. Era o celular que carregava sempre consigo. Talvez fosse o alarme que o despertaria de vez e o tiraria daquele inferno, imaginou, mas ao olhar para a tela viu que se tratava de uma chamada de um número desconhecido.

Ter o aparelho funcionando naquele caos era apenas mais uma entre tantas coisas impossíveis que se sucediam, então atender a chamada era a única atitude sensata a ser tomada. A voz do outro lado foi lacônica:

– Olhe para sua esquerda, ache o toco de árvore e siga no seu sentido até encontrar.

Jonas viu o toco, seguiu na sua direção e foi adiante. Caminhou por um tempo incalculável pelo cenário desolado e enxergou ao longe um prédio alto, aparentemente intacto, única edificação visível em um raio de quilômetros.

O prédio era conhecido. Tratava-se da sede do Tribunal Trabalhista, local em que Jonas já estivera algumas vezes. Era uma edificação grandiosa, reconhecível pela sua suntuosidade e pelos seus corredores vazados.

Para surpresa de Jonas, um trecho da avenida de acesso ao prédio estava também intacto. E repousavam no final daquela via, logo na entrada do edifício, dois aviões iguais aos que atacaram a cidade. Era possível ver que no mais distante estava um piloto; a cabine da aeronave mais próxima estava vazia.

O piloto fez um sinal, deu partida no motor e seguiu pela pista da avenida até tomar os ares novamente. Jonas seguiu até o avião vazio, entrou na cabine com dificuldade e ajeitou-se perante os instrumentos que lhe pareceram simples e familiares. Ligou o motor, taxiou a aeronave e também percorreu a avenida para decolar suavemente.

Antes de seguir o caminho do avião que decolou primeiro, Jonas deu uma volta no prédio do Tribunal, uma torre que agora se tornara magnífica no meio de toda destruição que ia além do horizonte. Ao passar bem próximo da edificação, foi possível ver que havia pessoas lá dentro, aparentemente iguais a ele.

Jonas fez o avião subir e rumou para o oeste. Primeiro avistou a aeronave que havia lhe esperado, depois, viu a gigantesca esquadrilha que sobrevoara a cidade. Na formação, dois espaços estavam vagos, e o piloto à sua frente rumou para se encaixar em um deles. Jonas então seguiu para o outro, certo de que aquele ali seria o seu lugar para sempre.

 

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fev 202017
 

PRÓLOGO

 

A fila à sua frente era imensa, mas fluía rapidamente, então ele nem teve muito tempo para fomentar a ansiedade. Ao passar pelo portal número 6 os scanners checaram a identidade e o estado de saúde do homem, e ele recebeu da máquina um pequeno cartão em que estava gravado “Gonzalez, L. M., corredor XXII, ala Q, cabine 1246”.

Os oficiais que guardavam as entradas nada precisaram dizer. Seguindo as instruções que haviam sido previamente passadas, Gonzalez seguiu pelo imenso pavilhão de acordo com as marcações, em meio a uma multidão de homens e mulheres que também procuravam seus habitáculos.

Todos que entravam vestiam trajes colantes pretos, que cobriam o corpo e deixavam apenas os rostos e as mãos para fora. As únicas marcas que os diferenciavam eram os nomes gravados no peito e as cores que adornavam os ombros das vestimentas, que correspondiam às funções de cada um. Já os oficiais da nave usavam uniformes totalmente brancos, com visores que pareciam flutuar sobre seus olhos, tão finas que eram as hastes que os prendiam.

Durante o trajeto até sua ala, Gonzalez pensava em como tudo ocorrera tão rápido. De fato, havia se passado menos de um ano entre a vida pacata que tinha como engenheiro civil numa cidade do interior até aquele momento em que se via prestes a partir para nunca mais voltar. Depois do alistamento voluntário, enfrentou baterias de testes físicos e teóricos, em três cidades diferentes, para então ser considerado apto a embarcar na estação espacial. Quando recebeu a notícia de que estava inscrito para missão, teve uma semana de folga para visitar a família e se despedir de todos.

Houve uma emocionada festividade em sua terra no dia de sua partida. Nenhum outro cidadão daquela cidade havia feito algo de destaque, e agora um conterrâneo iria partir para o espaço, como um explorador das histórias de ficção. A aventura foi celebrada por cada morador como se fosse de um parente próximo, o que de certa forma não deixava de ser verdade, tão pequena era aquela localidade.

Gonzalez imaginou que tanta empolgação talvez não se sustentasse caso vissem quantas outras pessoas, de milhares de lugares diferentes, também estavam tomando parte na missão, e isso o fez dar um sorriso sem graça.

O sorriso sumiu de vez quando pensou em Yanissy. Ela não estava entre todos na hora da despedida, embora fosse a única que Gonzalez quisesse realmente ver. A relação com o pai era fria desde que a mãe morrera anos atrás, e havia um silencioso consenso entre ambos que não havia nada mais que pudesse ser feito entre eles. Mas Yanissy era a mulher de sua vida, e foi por ela, ou melhor, pela falta dela, que Gonzalez resolveu partir.

Ao chegar ao seu corredor, parou e ficou olhando aquele imenso bloco cheio de portas de vidro, que parecia um gigantesco gaveteiro. A imagem que veio à mente de Gonzalez, porém, foi de uma organizada e tecnológica câmara mortuária, e isso o fez hesitar por um momento. Foi então que sentiu uma mão sobre o ombro e ouviu uma voz grave lhe dizer:

– Não precisa ficar preocupado, meu amigo. Prometo que não vai me ouvir roncar.

Gonzalez se virou para o homem alto, de rosto fino e queixo reto, também vestindo um traje com detalhes azuis, mas nada disse.

– Eu sei que essa coisa não é muito atraente, mas pode ficar tranquilo. É o mesmo que dormir uma boa noite de sono, a diferença é que essa noite vai durar quatro anos… – O homem estendeu a mão – Meu nome é Howard, mas todos me chamam de O Profeta.

– Oi, sou Gonzalez. Você já esteve em um negócio desses antes?

– Sim. Eu estive na missão Novaya. Passei dezesseis anos no espaço, voltei pra Terra, não me adaptei, e agora estou embarcando novamente.

Gonzalez já tinha conversado com alguns veteranos e queria saber mais sobre a vida em outros planetas, mas antes que pudesse perguntar, um oficial educadamente chamou a atenção dos dois homens, pedindo que se apressassem.

Eles se despediram e fizeram votos de boa viagem. Antes que Howard subisse para a sua estadia, que ficava quatro fileiras acima da de Gonzalez, este perguntou:

– Ei, antes de irmos, me diga: por que O Profeta?

– É por causa de uma história que aconteceu no Plex Mall de Nova Gagaringrado… Te conto tudo quando acordarmos.

– Tem alguma previsão para a viagem?

– Sim… Que vai tudo estar igual a sempre quando chegarmos ao outro lado do espaço!

Gonzalez encaixou na porta do habitáculo o cartão que recebera na entrada. A gaveta abriu, correndo para a frente um esquife com dois metros e meio de comprimento e cerca de um metro largura, aonde ele se deitou.  Havia dentro do receptáculo um par de luvas e uma máscara, que ele vestiu de forma a ficar com o corpo todo coberto.

O esquife começou a ser preenchido com um líquido transparente. Gonzalez mais uma vez pensou em seu pai, na sua cidade, e em Yanissy. Até o último momento ele aguardou que ela aparecesse para impedi-lo de seguir com seus planos. Como ela não veio, resignou-se em cumprir seu destino.

A esquife se recolheu automaticamente. Gonzalez fechou os olhos. Antes que seu corpo estivesse totalmente submerso no líquido, a máquina o fez adormecer.

 

 

jan 272017
 

 

mariola

 

 

Era véspera de Natal. O supermercado estava lotado e as filas eram longas e lentas. O jovem no caixa terminava de passar as compras de uma senhora de cabelos cor de beterraba, quando viu o homem que aguardava na fila:

– Senhor, me desculpe – disse o rapaz. Esta é a fila para os clientes preferenciais. Peço que procure outro caixa.

– Eu sei que esta é a fila do preferencial – respondeu o homem.

– Então, senhor… Este caixa só atende idosos, grávidas, pessoas com criança de colo ou portadores de necessidades especiais.

– Se é assim, estou na fila correta.

O caixa olhou bem para o homem, que aparentava não ter mais que trinta anos e não carregava criança alguma no colo. Pensou um pouco e disse, envergonhado:

– Perdão, senhor… Eu não tinha reparado que o senhor tem necessidades especiais.

– E quem disse que eu sou deficiente?

– Ora, o senhor é muito jovem para ser idoso e…

– Eu estou grávido! – disse o homem, interrompendo o caixa.

– Como?

– Eu estou grávido!

– Que absurdo!  – nesse momento, todos no supermercado acompanhavam o drama – O senhor queira já sair dessa fila antes que eu chame o segurança!

– Absurdo é a sua ignorância, rapaz! Exijo o gerente aqui agora!

O jovem apertou um botão ao lado da registradora e acendeu uma lâmpada sobre o número do caixa. Nesse momento, de um mastro até então despercebido desceu o gerente, como fosse um bombeiro chamado para uma emergência.

– Pois não, o que está acontecendo? – perguntou gerente ao rapaz no caixa.

– Este homem está na fila de atendimento preferencial e não quer sair pois diz que está grávido!

– Isso mesmo! Eu quero que meus direitos sejam respeitados!

O gerente ajeitou os óculos para mirar o homem da fila:

– Em tantos anos de supermercado, nunca vi algo assim! Isso é um absurdo!

O jovem caixa consentiu com a cabeça.

– Você não pode fazer isso! Será que você não consegue perceber que esse homem está grávido? – disse ao jovem, que quase caiu da cadeira. Virou então para o homem e continuou:

– O senhor me desculpe, prometo que isso nunca mais vai acontecer. Vou eu mesmo passar a sua compra. Você, rapaz, está dispensado.

O gerente tirou do bolso uma caixa com um botão, que ao ser apertado fez o rapaz ser ejetado da cadeira e jogado para fora do prédio. O gerente passou as compras do homem pelo leitor de código de barras e anunciou o valor total:

– Ficou em duzentos e quarenta reais

– Hmmm… posso pagar com uma mariola?

– Claro que não! Isso é um absurdo!

– Mas por quê?

– Ora, eu não tenho tantas jujubas pra te dar de troco!

***

Enquanto isso, um papagaio que a tudo presenciava virou-se para a madame ao lado e disse, consternado:

– Não acredito que perdi meu tempo prestando atenção nisso pra tudo acabar assim.

– Acabar como? – perguntou a madame.

– Assim.