jul 042019
 

OU: DO TEMPO EM QUE EU GANHAVA MILHÕES

 

Meu pai olhava da porta do quarto, com indignação, o filho que ainda estava na cama apesar de já ter passado das 9h da manhã:

– Muita moleza isso aí. Você poderia levantar e sair pra procurar um trabalhinho, que tal?

E assim foi, pois era 1990, eu tinha quase dezesseis anos e até aquele tempo eu não contrariava meu pai. Batemos de frente poucas vezes, na verdade, o que até lamento. Gostaria de ter tido mais tempo com ele para que eventualmente nos estranhássemos mais.

Como não tinha experiência com nada, achei que o mais fácil seria encontrar uma vaga como vendedor. Saí pela cidade e passei por várias lojas, começando pelas maiores: Casas Bahia, Lojas Cem, Ponto Frio, Arapuã. Nas menores procurava por algum anúncio ou por alguém conhecido que pudesse me ajudar.

Na Arapuã eu poderia ter vendido essa máquina de escrever, que custava 61.990,00 à vista ou 151.176,00 à prazo. Uma pechincha!

Não tive sucesso nos primeiros dias. Eu estudava em São Silvestre na época e tinha outros amigos na mesma situação, então decidimos procurar emprego juntos. A estratégia mudou para a busca através de agências, tanto de Jacareí quanto de São José dos Campos. Preenchíamos fichas e éramos informados que entrariam em contato quando surgisse uma possibilidade. Nunca surgiu.

Certo dia o Adriano, um topetudo baixinho que tinha o apelido de Tatu, me perguntou se eu sabia usar máquina de escrever e pediu para ver minha letra, pois havia uma vaga no escritório de contabilidade em que ele trabalhava. Como eu havia feito curso de datilografia na escola Olivetti e tinha uma letra razoável, estava credenciado para fazer uma entrevista com o Fermin, um espanhol muito alto e de vasta cabeleira branca.

O Fermin me contratou mas disse que não era para eu me apegar muito ao escritório, já que ele estava cansado daquela vida e pretendia largar tudo em pouco tempo e ir morar na praia com a Dona Maria, sua esposa. Passados quase trinta anos, creio que ele ainda diz a mesma coisa aos novos funcionários.

O meu trabalho era fazer a escrituração fiscal. Num grande livro eu lançava os dados das notas fiscais dos clientes do escritório, registrando tanto as entradas quanto as saídas de mercadorias. Como no livro não poderia haver rasuras, escrevia com uma caneta tinteiro que usava nanquim diluído e que poderia ser apagado com um pouco de aguarrás. Também preenchia formulários, de muitos tipos e tamanhos, usando papel carbono na máquina de escrever para garantir a exatidão de cada via – mesmo faltando cerca de dez anos para 2001, eram tempos de burocracia analógica. Quando o primeiro computador foi instalado no escritório parecíamos os primatas em volta do monólito.

Eu gostava do Fermin e dos meus colegas de trabalho. Trabalhávamos bastante, mas éramos todos meio moleques naquele tempo – só havia homens no escritório, por exigência da Dona Maria. As guerras de dardos de papel eram inacreditáveis, e as brincadeiras com os office boys às vezes passavam da conta, mas as brigas eram raras e nos dávamos bem.

Além do Adriano Tatu havia o Chico, que é filho do Fermin e trabalha com ele até hoje; o Dito, sempre à espera do pior; o romântico Renato e o Adriano Sacomani, que era um bom amigo cujo contato perdi depois que entrei na faculdade. Muitos caras legais passaram por lá, como o Lázaro, o Gerson, o Luciano, o Droopy e outros. A  rotatividade entre os office boys era grande, principalmente porque o salário não era grande coisa.

     O office boy era a cara do Droopy

Ah, o salário! Os mais jovens não sabem a emoção de receber mais de um milhão por mês! Milhões de cruzeiros, que não valiam nada, e que graças a inflação descomunal perdiam valor a cada dia. O momento de receber era sempre um suspense: a inflação fazia com que o salário tivesse que ser renegociado a cada pagamento. Íamos um a um na sala do Fermin, e a pergunta para quem saía de lá era “E aí, com está o homem hoje? Generoso?”. Nunca estava.

Os milhões que recebíamos não davam para muita coisa. Como eu estudava em escola pública, o dinheiro era gasto com roupas que comprava na Rosvaldo e na Infinity, com HQ’s e nos finais de semana na New Wave e no Banana Split, as danceterias que marcaram nossa época. Quando a grana estava mais curta, íamos à Eclipse e às domingueiras do Elvira, geralmente para nos arrependermos no dia seguinte.

Em julho de 1993 disse para o meu pai queria deixar o escritório, que queria me dedicar aos estudos para a faculdade e ele aceitou sem ressalvas (quando anunciei que precisávamos ter uma conversa séria ele imaginou que seria sobre ser avô, então a notícia não foi tão dramática quanto ele temeu).

Pouco tempo depois, numa sexta-feira, meu pai veio me avisar sobre o fim das inscrições para o vestibular na Unicamp, mas isso é uma outra história.

 

De pé: Renato e Adriano Sacomani Sentados: Luciano e Adriano Tatu

 

Lázaro e eu, em Campos do Jordão

 

maio 202019
 

Como todos sabemos, a expectativa é a mãe de toda decepção.

Centenas de milhares de fãs de GAME OF THRONES estão hoje reclamando do desfecho da série, muito disso porque os anseios sobre os destinos dos personagens não foram atendidos.

Eu estou entre aqueles que viram apenas a história na TV e não têm os livros como referência. Confesso que até comprei as obras, mas não consegui terminar de ler nem a primeira. Não ter os escritos do R.R. Martin como comparação torna mais fácil assimilar o que passou na HBO.

Talvez eu faça parte de uma minoria que gostou do final. Não foi apoteótico, ficou longe de ser excelente, mas foi bom. E, ao contrário do que andam dizendo, creio que houve coerência com os personagens:

(Aqui começam os spoilers.)

Jon Snow – Era um pária entre os Starks, nunca viveu como um Tangaryen. Foi discriminado na Patrulha da Noite e, quando se tornou comandante, foi morto por seus pares. Assumiu o trono de Rei do Norte a contragosto e entregou o reino na primeira chance. Ao final, foi mandado de volta para a Muralha, para ser aquilo que lhe cabia, o líder dos enjeitados.

Sansa –Quando a coroa lhe foi colocada sobre a cabeça suas aspirações juvenis foram realizadas. Mas a rainha que ela se tornou é muito diferente daquela dos contos que a sua cuidadora lhe recitava quando criança. Creio que Sansa foi a personagem mais bem desenvolvida durante toda a série.

Arya – Nunca quis viver em castelos. Não curtiu muito a noite que passou com Podrick  Gendry. Foi ser feliz no oeste.

Bran – O que mais incomoda com sua nomeação ao trono dos Seis Reinos é que o personagem nunca demostrou a grandeza que esperávamos para o cargo. “Mas ele tinha a melhor história”, disse Tyrion. Do lado de cá da tela acho que ninguém pensa assim, por isso é mais difícil imaginar que os grandes lordes tenham concordado com a tese do anão.

Mas é preciso apontar que, num bolão feito antes do começo da última temporada (é, teve isso), eu acertei que Bran acabaria como o senhor de Westeros. Eu achei que isso aconteceria graças às suas qualidades místicas, porém o misticismo da série morreu junto com o Rei da Noite.

Daenarys – Durante toda a série a história dos Tangaryen foi lembrada, mas enquanto se acreditava que ela seria “diferente” ela seguia matando de formas bem cruéis. Quando ela deixou de exterminar apenas quem nós achávamos que deveria morrer, muita gente reclamou que a personagem havia mudado bruscamente.

Ela não mudou. Talvez a série pudesse ter desenvolvido melhor isso, mas como todo déspota, Daenarys forjou um mito. E líderes que se sustentam com mitificações não são boa coisa.

Tyrion – O Vinicius Felix bem colocou em seu twitter (@ViniciusFelix) que o grande vencedor do Jogo dos Tronos foi o “duende”. Embora tenha dado umas fraquejadas durante a temporada, no final ele voltou a se mostrar inteligente e manipulador para cessar a ameaça expansionista de Daenarys e garantir que o trono fosse ocupado por alguém que lhe pouparia a vida.

Como um bom Lannister, ele cumpriu as promessas feitas a Bromm e se colocou como protagonista no novo reinado – embora esquecido pelos livros de história.

Talvez ficasse mais óbvio se Tyrion tivesse dado um sorrisinho durante a reunião dos lordes ou, à la House of Cards, tivesse piscado para o expectador.

***

Faltou um plot twist no final, tipo era tudo um sonho do Bran enquanto ele estava acamado em Winterfell? Ou será que nós, culturalmente criados pelas novelas globais, nos ressentimos da falta de um casamento no último capítulo? Na minha nunca humilde opinião, seis episódios na última temporada foram insuficientes para amarrar todas as pontas. Algumas soluções pareceram apressadas e em certos momentos o roteiro patinou.

O saldo das 8 temporadas, contudo é muito positivo. E acredito que, ao revermos a série daqui a algum tempo, vamos ter melhores impressões sobre esse polêmico final.

Minha conclusão é pobre, simplista? Pelo menos minhas postagens não criam grandes expectativas para ninguém.

 

 

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jan 042019
 

 

 

Mal terminou de soar o apito e todos olharam para o juiz, que apontava para a marca de pênalti dentro da grande área. O lance foi muito claro, não havia nenhuma dúvida sobre o acerto da marcação, por isso o arbitrou estranhou quando o time infrator o cercou e começou a reclamar:

– Que é isso, professor? O que o senhor fez?

– Foi pênalti, todo mundo viu, podem dispersar!

– Mas de onde o senhor tirou essa ideia de que isso é pênalti?

– Das regras do futebol, oras! Está na regra 14!

– Isso é o senhor que está dizendo…

– Que é isso, gente? Mão na bola dentro da área é pênalti, todo mundo sabe.

– O senhor que está interpretando desse jeito.

– Não estou interpretando nada! O cara segurou a bola com as duas mãos!

– Ah, já entendi! O senhor está dizendo isso porque é esquerdista! Bolivariano!

– Como?

– Como? Como-nista, isso é o que o senhor é! Comunista!

– Mas isso não tem nada a ver! É regra do futebol! Além de segurar a bola com as mãos ele ainda jogou pra frente, como se estivesse dando um saque de vôlei!

– Isso o senhor diz porque foi doutrinado! Eu não vi em nenhum lugar isso que o senhor está dizendo aí! Aliás, na internet eu vi um vídeo que falava que pênalti nem existe, foi uma invenção socialista!

– O quê? Que loucura é essa? Está nas regras na International Board! É só ler!

– International, né? Sabia! Globalista que nem a Ursal! E a interpretação do que leu foi feita com base na sua ideologia, professor!

– Vocês estão loucos! Saiam daqui, saiam todos! Só vou falar com o seu capitão!

– O capitão sou eu, mas eu não vou falar nada pois o senhor vai querer debater comigo e eu não gosto disso não. Pode falar com o Paulinho que ele que manja dessas coisas de regras.

– Chega, perdi a paciência! Se vocês não dispersarem, vou expulsar todo mundo – disse o árbitro enquanto puxava o cartão do bolso.

– Olha lá! Eu sabia! Olha na mão dele! O cartão é vermelho! Comunista! Comunista!

***

Fora de campo, os dois gandulas assistem a tudo sem nada entender. Tiquinho, o mais velho, pergunta então a Biriba se ele sabia o que estava acontecendo:

– Não sei não. Esses caras discutem por tudo. Daqui a pouco vão discutir até se a bola é plana…

– E não é? – respondeu desafiadoramente o menino.

 

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set 182018
 

 

 

 

O telefone tocou às 3h55. Muito antes da hora programada para o alarme, pouco depois que Luiz se deitara. O quarto foi iluminado pela claridade da tela do celular, que vibrava e emitia um som repetitivo, transformando o cômodo numa pequena boate para o homem que acordou assustado.

– Alô? Alexandre? O que houve? – Perguntou Luiz,com uma voz que denunciava que o álcool ainda não fora devidamente processado pelo organismo.

– Cabeça, me diz uma coisa, quem ganhou a Copa de 82?

– Como é que é?

– A Copa de 82… Quem ganhou?

Breve silêncio.

– Puta que pariu, Alexandre! Cê viu que hora são? Eu tô dormindo, cacete, quase morri do coração!

– Responde pra mim, Cabeça, por favor.

– Você está mais bêbado que eu, é isso?

Luiz morava a mais de seiscentos quilômetros de São Paulo, e não sabia o que tinha acontecido com seu amigo dos tempos de colégio. Era chamado pelos colegas de Cabeça graças ao seu conhecimento enciclopédico sobre futebol, e sempre era consultado quando surgia uma discussão acerca de algo fundamental como o nome do zagueiro central da Portuguesa de 96 ou o placar do jogo entre Santos e Corinthians no Paulistão de 87.

Seu interesse por esportes o levou a cursar educação física em Presidente Prudente, e por lá ficou depois da pós-graduação, tornando-se professor na faculdade que frequentou. Agora ele estava ao telefone com Alexandre, um amigo querido, mas de quem não tinha notícias há algum tempo, e que lhe estava fazendo uma pergunta ridícula no meio da madrugada.

– Cabeça, aconteceram umas coisas, eu não sei se você está sabendo, mas eu preciso que você me diga sobre a Copa.

– O Brasil perdeu em 82, Alê… Todo mundo sabe, o mundo inteiro sabe, você sabe, conversamos sobre isso várias vezes… O que está acontecendo?

Alexandre fez silêncio por uns instantes e respirou fundo antes de responder:

– Eu tive um acidente, Cabeça… Fiquei em coma por uns dias mas agora eu estou recuperado.

– Cara, eu não sabia – disse Luiz, já de pé e a caminho da cozinha, aonde foi buscar um copo de água – Você está bem? O que aconteceu?

– Eu estou bem, mas… O Brasil não ganhou aquele jogo da Itália nos pênaltis? Eu tinha certeza que o Brasil tinha passado pela Itália, depois da Holanda, e vencido a Alemanha na final, por dois a zero.

– Putz, que confusão! O Brasil perdeu da Itália: três a dois, com três gols do Paolo Rossi. A Holanda nem jogou aquela Copa!

– Meu Deus! Eu me lembro claramente dos gols da final… O goleiro soltando a bola nos pés do Zico…

– O goleiro alemão soltou a bola nos pés do Ronaldo, em 2002. Você está fazendo uma salada futebolística: a Itália perdeu nos pênaltis pro Brasil na final da Copa de 94, a Holanda perdeu na semifinal em 98 e a Alemanha perdeu em 2002.

A seleção de 82 entrou para a história justamente por ter sido formada por uma geração de craques que não venceu, mas não era disso que Alexandre se lembrava. Pouco antes de fazer a ligação ele resolveu acessar a internet, coisa que não tinha feito desde que deixara o hospital. Abriu as redes sociais e leu várias das mensagens que tinham sido deixadas em seu perfil, mas eram tantas que logo se cansou. Começou a navegar pelos sites e se deparou então com uma entrevista de Falcão, o Rei de Roma, na qual ele falava sobre as causas do fracasso da seleção na Copa da Espanha.

Alexandre ficou sem compreender, afinal, a alegria pela conquista daquela Copa tinha sido um momento mágico de sua infância. Ele se lembrava de comemorar abraçado com seu pai e seus irmãos, do seu tio chorando, da sua mãe vestida de amarelo na casa da rua do morro.

De repente, tudo aquilo não era mais verdade, tudo se tornou estranho.

Sem pensar muito no que fazia, ligou para o amigo que mais confiava acerca de memória do futebol, e se sentiu mais confuso ainda. Mesmo depois de confirmada a notícia da derrota, foi difícil aceitar. Não havia motivos para duvidar do Luiz Cabeça, mas suas lembranças eram tão firmes e detalhadas que era difícil não crer que eram reais.  Uma parte feliz da sua infância lhe foi arrancada repentinamente, causando não só um vazio difícil de explicar, como também uma séria preocupação com a própria sanidade.

– Alê, Alê… Cara você está aí?

Alexandre ouviu o chamado do amigo e olhou para o telefone, desolado. Deu um sorriso triste e disfarçou:

– Ei, Cabeça, são esses remédios que eu ainda estou tomando. Eles me deixam sem dormir direito e aí eu fico meio xarope. Faz três dias que eu saí do hospital e ainda deve ter muita porcaria no meu sangue! Cara, me desculpe por ligar a essa hora, eu devo ter sonhado com esses jogos aí que eu falei pra você e aprontei essa presepada, tô até com vergonha!

– Alê, você está bem mesmo? Eu estou em época de provas na faculdade mas posso me planejar pra ir pra São Paulo em breve, assim você me coloca em dia com todos esses acontecimentos.

– Vai ser muito legal te receber aqui – mentiu Alexandre – Eu estou bem, pode ficar tranquilo – mentiu de novo.

– Tá bom, meu irmão, a gente se fala. Fiquei preocupado com você.

– Não precisa não, Cabeça. Eu estou bem. Vou acordar achando que essa conversa que estamos tendo agora é um sonho, depois vai me bater uma ressaca moral quando confirmar no histórico do celular que eu te liguei mesmo.

– Nem me fale de ressaca que já começo a sentir os efeitos da minha. Fica com Deus.

– Grande abraço!

Luiz desligou o telefone e não sabia se ficava preocupado ou se dava risada do amigo, que parecia estar mais chapado do que ele. Decidiu que voltaria a pensar nisso depois que estivesse recuperado, se ajeitou na cama para voltar a dormir, e então lhe veio um pensamento à cabeça: “Se Alexandre pensava que o Brasil venceu a Copa de 82, o que será que aquele maluco lembra da Copa de 2014?”

 

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maio 242018
 

 

 

Sentado em uma mesa de costas para a porta, Alexandre olhava pela janela a chuva que caía com força. Celebrou a própria sorte por ter chegado antes do aguaceiro e imaginou que a partir daquele momento as coisas poderiam finalmente mudar. Ele então inseriu o canudinho no copo de refrigerante, abriu o pacote de guardanapos e estava tirando o lanche da caixinha quando sentiu uma mão em seu ombro:

– Oi, Alexandre, tudo bem? Como você está?

Era Clara, uma conhecida desde os tempos de adolescência no antigo Clube V, aonde passavam os finais de semana. Ela era uma mulher bonita, com bochechas rosadas e cabelos avermelhados, e que tinha costume de continuar falando antes de ouvir a resposta.

– Que bom que você está recuperado! Todos ficamos apreensivos, rezamos muito pela sua saúde. Eu sempre tive fé que tudo ia dar certo!

– Poxa, nem tenho como agradecer – respondeu ele, sem graça.

– Você parece bem! Está mais magro! Que bom te ver assim. A_________ está aqui também, foi lavar as mãos. Ela vai gostar de te ver.

– Quem está aí?

– A   ___________!

Alexandre não ouviu o nome da moça, embora Clara tenha dito perfeitamente. Ele viu os lábios se mexendo, mas nenhum som foi emitido, ao menos para seus ouvidos. Antes que pudesse perguntar novamente, a ruiva anunciou:

– Pronto, foi só falar que ela apareceu. Amiga, veja só quem está aqui!

A colega de Clara conhecia Alexandre muito bem, pois ambos tinham sido namorados naquela mesma época do clube. Foi um relacionamento breve e sem muita importância na vida dos dois, e que acabou sem gerar nem saudades nem ressentimentos. Nada que justificasse o desprezo que ele aparentou demonstrar ao sequer cumprimentá-la.

A inércia de Alexandre, todavia, não foi proposital. Assim como não tinha escutado o nome da moça antes, ele também não a enxergava, mesmo que estivessem a alguns centímetros de distância. Ele percebeu que algo estava errado pela reação de Clara, que por sua vez não compreendia o motivo dele ignorar sua amiga.

– Faz tempo que vocês não se veem? – perguntou a ruiva, tentando quebrar o gelo.

Alexandre não podia responder já que não via ninguém ali, nem tinha a menor ideia de quem fosse. Já incomodada com a situação e sem entender o motivo daquilo, ___________ falou da última vez que tinham se encontrado.

– Ah, já faz um tempinho então… – disse Clara – Bom, vamos comer que essa chuva deixou o dia ainda mais corrido.

Clara puxou ___________ pelo braço e foi se sentar no outro lado do salão com a amiga, que estava indignada com a atitude de Alexandre. “Calma! Acho que ele não está muito bem da cabeça. Está com uma cara de bobo”.

A avaliação estava correta, inclusive sobre a feição de Alexandre, que mal conseguia comer o lanche à sua frente. Sua cabeça estava borbulhando, tentando compreender o que acontecera e, mais ainda, tentando descobrir quem era a pessoa invisível.

Pensou em várias amigas que tinha em comum com Clara, mas poderia ser qualquer uma delas. De todas as possibilidades, porém, em nenhum momento lhe ocorreu _________, que simplesmente não existia em suas memórias.

Muitas pessoas pagariam para esquecer de momentos trágicos ou de pessoas que causaram alguma dor. Alexandre até se lembrou de ter visto algo sobre uma empresa americana que apagava relacionamentos frustrados da memória, era uma firma criada pelo ator Jim Carrey, ou algo assim. Mas, inconscientemente, Alexandre tinha ido além: não só deletou aquela pessoa como também a bloqueou por completo, tornando ___________ um nada, como um fantasma para quem não crê na vida após a morte.

A situação fez a fome de Alexandre se transformar em mal-estar, e terminar de comer se tornou impossível de vez quando Clara e a amiga voltaram para a mesa do rapaz. __________ estava tão indignada com o aparente desprezo dele que quis tirar satisfação, mas tudo o que ele via era o constrangimento da amiga ruiva com aquela cena na lanchonete. Ele resolveu então tentar esclarecer, no tanto que fosse possível:

– Clara, deixa eu te falar uma coisa: você sabe o que aconteceu comigo, e tudo o que houve mexeu com a minha cabeça, de uma forma que eu não sei explicar. Eu estou tendo ainda uns lapsos, uns apagões, e tá foda… Me parece que você está com alguém aí com você, mas eu não tenho a menor ideia de quem seja.

– Você não se lembra da __________?

– Não.

– Poxa, Alê, olhe bem pra ela, impossível que não se recorde dela! Vocês foram namorados, que feio isso!

Alexandre torceu a boca.

– Pra ser sincero, eu não estou nem enxergando essa pessoa que está aí com você.

___________ ficou muito irritada com o que ouviu. Achou que fosse mentira, se sentiu desrespeitada e inutilmente disse um monte de palavrões e xingamentos para o rapaz. A inércia de Alexandre a deixou mais brava ainda, ao ponto dela tascar um tapa na cara do ex-namorado antes de sair pisando duro.

– Pelo menos isso eu senti… – disse sorrindo envergonhadamente para Clara, que se despediu e foi atrás da amiga, sob a chuva que continuava a cair.

 

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abr 202018
 

 

Faz tempo que não escrevo nada. Ando desanimado, me parece que o mundo já tem textão demais, todo mundo tem opinião sobre tudo e ninguém está entendendo nada. Manter um blog no atual cenário é apenas um exercício de egolatria: leiam o que eu escrevo pois a minha opinião é a mais certa e eu explico tudo pra você.

Tem um monte de coisas mais legais por aí do que acompanhar um blog. RICK AND MORTY, por exemplo.

Trata-se de um desenho adulto, engraçado, violento, niilista, herege e inteligente. Um neto bundão e seu avô cientista bêbado (inspirados na dupla McFly e Doc Brown, do De Volta para o Futuro) viajam por planetas, dimensões paralelas e realidades alternativas e depois voltam para a casa, que nem sempre – quase  nunca – fica imune às consequências. Ficção científica misturada com pitadas de filosofia, piadas sobre peido e monstros alienígenas que explodem em sangue. Na Netflix tem as duas primeiras temporadas.

 

 

WILD WILD COUNTRY é uma série documental bem legal, também disponível na Netflix, que mostra a história do um guru indiano Bhagwan Rajneesh (também conhecido como Osho) e sua tentativa de criar uma cidadela para seus seguidores em uma região praticamente deserta nos EUA. Logo no primeiro episódio aparece a imagem de alguém dizendo que, no futuro, alguém iria escrever um livro sobre aquilo tudo e chamariam de ficção. Pois é tudo verdade, e é tudo muito louco.

São seis episódios de cerca de uma hora cada um, mas passa rápido. O mais bacana é que ao longo da série a percepção sobre os envolvidos muda: os caipiras xenófobos também são vítimas de um bando de religiosos fanáticos; o governo está certo e errado em tomar medidas contra aquele mini-Estado não-cristão que está sendo criado no interior; nem todos os adeptos da filosofia paz e amor são de paz (mas amor eles faziam muito, pelo jeito).

Até agora fico tentando entender cada um dos personagens que são mostrados, mas estou longe de conseguir. Acho isso um grande mérito dos autores da obra.

 

 

Para que não pensem que eu estou sendo patrocinado pelo Netflix, lembro que no Youtube é possível ver todos os quadros do CHOQUE DE CULTURA, com os melhores nomes do transporte alternativo do Brasil e suas avaliações sobre filmes. O problema de assistir esses caras é que você acaba se interessando pelo FALHA DE COBERTURA e suas análises esportivas, aí dá de cara com o ESCROTO GOMES e suas frases bem elaboradas e, quando se dá conta, está assistindo O ÚLTIMO PROGRAMA DO MUNDO e cantando as versões em português de músicas grunge do Seu Getúlio.

 

 

Essas são apenas algumasgestões de coisas para ocupar o tempo que são mais interessantes que este blog. Quando eu tiver uma opinião certeira pra dar, ou precisar explicar algo de um jeito bacana, eu volto.

 

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set 212017
 

 

 

As portas se abrem e todos deslocam seus olhares à noiva, que aparece trajando um belíssimo vestido branco e um sorriso tenso e largo. Todos se levantam e os músicos começam a cantar à capela. Nesse momento, ao lado do altar, um dos padrinhos começa a cochichar para o noivo:

– Putz, essa música, agora, não!

– Por quê?

– Essa música me lembra sacanagem.

– Cara, tá tocando Ave Maria, de Schubert!

– É, eu sei, é essa mesmo.

– Você tem que ser muito pervertido pra pensar em sacanagem enquanto toca Ave Maria!

– Ou a sacanagem é que foi muito boa.

– Ah, qual é? Isso não é hora de brincadeira.

– Não estou brincando não. Você sabe que eu não sou de me gabar mas…

– Mas é isso que você está fazendo bem agora, se gabando durante o meu casamento!

Uma das madrinhas faz “psiu”, cobrando silêncio. Os dois se calam para observar a noiva, que ainda não tinha chegado ao meio da nave. Lágrimas emocionadas escorrem de alguns rostos, borrando instantaneamente maquiagens que foram produzidas durante horas. Cada passo dado com vagar faz os fotógrafos trocarem de posições, encenando uma estranha coreografia. O noivo então cochicha para o padrinho:

– Conta aí.

– O quê?

– Conta aí qual foi a sacanagem.

– Não posso.

– Por quê?

– Estamos numa igreja, não posso falar disso.

– Não quer falar, mas você está pensando nisso, né?

– Sim! – A confirmação vem acompanhada de um largo sorriso.

– Filho da …

– Shiiii! – A mesma madrinha volta a interromper a conversa, agora olhando de forma firme para ambos.

A noiva continua vagarosamente, e seu pai, que caminha ao seu lado todo orgulhoso, faz mais pose para as fotos do que a própria estrela do evento. Cada novo flash, um sorriso diferente. O noivo volta a inquirir o padrinho:

– Quem sabe dessa história?

– Ninguém! Quase contei para o padre Antônio, mas desisti.

– Você ia falar para o padre de uma sacanagem sua?

– Eu ia me confessar.

– Confessar? Mas você nem é católico!

– Pra você ver o tamanho do pecado!

– Foi com a Lavínia?

– Também!

– Como?

O noivo encara o padrinho por instantes, perplexo, até que recebe um cutucão. A noiva já tinha chegado ao altar e olhava de forma atravessada, indignada com a falta de atenção do seu futuro marido. Ele então sorri, recebe a mulher do sogro, e se encaminha até o padre, que celebra a cerimônia e os declara marido e mulher.

***

Os recém-casados já receberam os cumprimentos e agora se sentam em uma mesa no salão em que realizam sua festa. A esposa aproveita o breve momento de calmaria para perguntar ao marido:

– O que foi aquela conversa no altar com o Parini?

– Ele me deixou curioso com uma história justo na hora que você estava entrando. Falou que a Ave Maria o fez lembrar de uma sacanagem, veja só!

– Ah, é?

– Cara sem noção. No momento que toca a música que a noiva escolheu para marcar um momento da vida, ele começa a lembrar de besteira!

– Desencana, amor! Deixe pra lá, agora não é hora disso! Espere um minutinho, vou tirar uma foto com a Lavínia e já volto.

– Aproveite e pergunte pra ela, vocês conversam sobre tudo mesmo! Eu não me importo em ser um último a saber.

– Que bom que não se importa, amor – e sorri a noiva, de um jeito diferente de todos os outros sorrisos que deu naquela noite.

 

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jul 272017
 

 

Certa vez, em um 27 de julho, eu estava com o carro parado na rotatória quando uma van atravessou a preferencial e acertou uma Kombi que voltava da feira. A Kombi foi arremessada contra o meu veículo, que foi atingido sem que eu pudesse ter qualquer reação. Os peixes que o feirante levava se espalharam pela rua, e um deles repousou melancolicamente sobre o meu para-brisa.

Em outra oportunidade, na mesma data, eu ganhei na Mega Sena. Como foi apenas com uma quadra, e tinha feito a aposta num bolão, o dinheiro não deu para quase nada.

Quando eu era moleque, eu fui perseguido, num 27 julho, por todos os outros moleques da rua Santa Cecília. Não adiantou eu tentar me esconder em casa, eles vieram atrás de mim sem qualquer cerimônia, e me alvejaram com um ovo quando eu tentava pular a janela do quarto dos fundos. Um ano depois, tentei fugir escalando a área de serviço, mas fui cercado pelos meninos que me aguardavam do lado do muro. Ovo de novo.

Num domingo, 27 de julho de 1986, Adilson Maguila Rodrigues enfrentou o argentino Daniel Falconi numa revanche. Nocaute para o brasileiro. Eu assisti a luta sentado entre meu pai e meu avô.

Nesse mesmo dia, mas em outro ano, assamos pizza na área grande. Estava frio, era um dia de semana, mas foram todos os meus tios, primos e amigos, e naquele dia fui dormir me sentindo prestigiado e privilegiado.

Há alguns anos atrás, num 27 de julho, teve um show de uma banda cover dos Beatles, em São José dos Campos.

Graças ao dinheiro que ganhei num ano, comprei o Dois, do Legião Urbana. Em outro ano, o Psicoacústica do Ira!, um discão, como já contei aqui.

E teve um 27 de julho, há muito tempo atrás, que eu nasci.

 

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jun 072017
 

 

 

“Que pena… quando você sair daqui, nunca mais vai pensar em mim”.

Laura estava sentada no lado oposto ao do homem de terno cinza e gravata amarela. Seus olhares já haviam se cruzado algumas vezes, e o discreto sorriso que ele deu fez o rosto dela se avermelhar de vergonha. Ela era tímida, mas flertar com aquele estranho no metrô era algo que não podia resistir.

O homem era muito bonito. Alto, com rosto esguio e barba bem aparada, sentava-se de forma elegante e pouco desviava os olhos do que estava à sua frente. Parecia estar absorto em pensamentos profundos e graves, o que conferia ao sorriso dado um verniz ainda mais especial.

O metrô estava ainda vazio, comum para aquele horário do meio da manhã. Uma turma estudantes entrou no vagão falando alto, chamando a atenção como os garotos bobos tanto gostam de fazer. Uma mulher segurava uma sacola cheia de produtos de supermercado. Um outro homem de terno, não tão bonito, estava de pé, embora muitas poltronas estivessem vagas. Laura sentava-se de costas para a janela, e às vezes olhava para celular, ajeitava o livro e a pasta que carregava no colo, mexia nos cabelos avermelhados que escorriam por trás das orelhas e voltava a espiar aquele que imaginou se chamar Jonas.

“Ele tem cara de Jonas”.

Ela não sabe por quê pensou nesse nome, que achou que combinava com o que parecia ser um advogado indo atender um poderoso cliente. Ou com um renomado executivo que iria tratar de negócios milionários em uma importante reunião. “Mas rico ele não é. Rico no Brasil não usa metrô. Ele ainda vai ficar rico!”.

Tentou adivinhar quantos anos o homem teria. “Entre trinta e trinta e cinco”. Imaginou Jonas apresentando relatórios sobre balanços financeiros altamente positivos para uma mesa de senhores e senhoras sisudos. Em certo momento, ele faria uma tirada espirituosa e daria um discreto sorriso, fazendo todos balançarem a cabeça por admiração à sua inteligência e ao seu charme.

Pensou também em como ele seria falando perante um tribunal. Com o dedo em riste e voz firme, mas sem perder a pose, apresentaria seu argumento inquestionável que emudeceria a plateia, convenceria os jurados e conquistaria todos os corações.

Só depois que o trem voltou a se mover que Laura parou com seus devaneios e percebeu a mulher que entrou na última estação. “Que perua!”, pensou ela, sem admitir que se tratava de uma moça belíssima, usando uma roupa que torneava o corpo sem deixá-la vulgar. Todos que estavam no vagão olharam para aquela mulher, e homem de terno que estava em pé até mudou de posição para enxergar melhor.

O incômodo daquela presença se tornou ainda maior quando Laura flagrou Jonas olhando para a moça. “Sério?”. Em milissegundos, sentiu indignação, inveja, ciúme, desprezo. Fez-se de desinteressada antes que voltasse a olhar para o homem que voltava a fitar para a frente de forma impávida.

Foi então ela percebeu que o homem que estava de pé acompanhava a situação toda e também sorriu, mas de forma cúmplice. Laura voltou a ruborizar, imaginando que todos os seus pensamentos sobre Jonas e a Biscate (foi esse o nome que ela deu para aquela mulher bonita) serviam de divertimento para um estranho.

Dos alto-falantes do vagão saiu o anúncio da próxima parada, e era vez de Laura descer. Ela se levantou, rumou até porta e olhou uma última vez para Jonas, que acompanhou sua saída e deu um último sorriso com o canto da boca.

Laura desceu do trem equilibrando os materiais de estudo, a pasta e o livro, procurou pela saída, enroscou-se na catraca com uma senhora de cabelos arroxeados e deixou a estação preocupada com o horário e com a chuva que parecia estar por vir.

Na rua, seus pensamentos foram tomados pela cidade e suas distrações, e então ela se esqueceu de Jonas para sempre.

 

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