fev 202017
 

PRÓLOGO

 

A fila à sua frente era imensa, mas fluía rapidamente, então ele nem teve muito tempo para fomentar a ansiedade. Ao passar pelo portal número 6 os scanners checaram a identidade e o estado de saúde do homem, e ele recebeu da máquina um pequeno cartão em que estava gravado “Gonzalez, L. M., corredor XXII, ala Q, cabine 1246”.

Os oficiais que guardavam as entradas nada precisaram dizer. Seguindo as instruções que haviam sido previamente passadas, Gonzalez seguiu pelo imenso pavilhão de acordo com as marcações, em meio a uma multidão de homens e mulheres que também procuravam seus habitáculos.

Todos que entravam vestiam trajes colantes pretos, que cobriam o corpo e deixavam apenas os rostos e as mãos para fora. As únicas marcas que os diferenciavam eram os nomes gravados no peito e as cores que adornavam os ombros das vestimentas, que correspondiam às funções de cada um. Já os oficiais da nave usavam uniformes totalmente brancos, com visores que pareciam flutuar sobre seus olhos, tão finas que eram as hastes que os prendiam.

Durante o trajeto até sua ala, Gonzalez pensava em como tudo ocorrera tão rápido. De fato, havia se passado menos de um ano entre a vida pacata que tinha como engenheiro civil numa cidade do interior até aquele momento em que se via prestes a partir para nunca mais voltar. Depois do alistamento voluntário, enfrentou baterias de testes físicos e teóricos, em três cidades diferentes, para então ser considerado apto a embarcar na estação espacial. Quando recebeu a notícia de que estava inscrito para missão, teve uma semana de folga para visitar a família e se despedir de todos.

Houve uma emocionada festividade em sua terra no dia de sua partida. Nenhum outro cidadão daquela cidade havia feito algo de destaque, e agora um conterrâneo iria partir para o espaço, como um explorador das histórias de ficção. A aventura foi celebrada por cada morador como se fosse de um parente próximo, o que de certa forma não deixava de ser verdade, tão pequena era aquela localidade.

Gonzalez imaginou que tanta empolgação talvez não se sustentasse caso vissem quantas outras pessoas, de milhares de lugares diferentes, também estavam tomando parte na missão, e isso o fez dar um sorriso sem graça.

O sorriso sumiu de vez quando pensou em Yanissy. Ela não estava entre todos na hora da despedida, embora fosse a única que Gonzalez quisesse realmente ver. A relação com o pai era fria desde que a mãe morrera anos atrás, e havia um silencioso consenso entre ambos que não havia nada mais que pudesse ser feito entre eles. Mas Yanissy era a mulher de sua vida, e foi por ela, ou melhor, pela falta dela, que Gonzalez resolveu partir.

Ao chegar ao seu corredor, parou e ficou olhando aquele imenso bloco cheio de portas de vidro, que parecia um gigantesco gaveteiro. A imagem que veio à mente de Gonzalez, porém, foi de uma organizada e tecnológica câmara mortuária, e isso o fez hesitar por um momento. Foi então que sentiu uma mão sobre o ombro e ouviu uma voz grave lhe dizer:

– Não precisa ficar preocupado, meu amigo. Prometo que não vai me ouvir roncar.

Gonzalez se virou para o homem alto, de rosto fino e queixo reto, também vestindo um traje com detalhes azuis, mas nada disse.

– Eu sei que essa coisa não é muito atraente, mas pode ficar tranquilo. É o mesmo que dormir uma boa noite de sono, a diferença é que essa noite vai durar quatro anos… – O homem estendeu a mão – Meu nome é Howard, mas todos me chamam de O Profeta.

– Oi, sou Gonzalez. Você já esteve em um negócio desses antes?

– Sim. Eu estive na missão Novaya. Passei dezesseis anos no espaço, voltei pra Terra, não me adaptei, e agora estou embarcando novamente.

Gonzalez já tinha conversado com alguns veteranos e queria saber mais sobre a vida em outros planetas, mas antes que pudesse perguntar, um oficial educadamente chamou a atenção dos dois homens, pedindo que se apressassem.

Eles se despediram e fizeram votos de boa viagem. Antes que Howard subisse para a sua estadia, que ficava quatro fileiras acima da de Gonzalez, este perguntou:

– Ei, antes de irmos, me diga: por que O Profeta?

– É por causa de uma história que aconteceu no Plex Mall de Nova Gagaringrado… Te conto tudo quando acordarmos.

– Tem alguma previsão para a viagem?

– Sim… Que vai tudo estar igual a sempre quando chegarmos ao outro lado do espaço!

Gonzalez encaixou na porta do habitáculo o cartão que recebera na entrada. A gaveta abriu, correndo para a frente um esquife com dois metros e meio de comprimento e cerca de um metro largura, aonde ele se deitou.  Havia dentro do receptáculo um par de luvas e uma máscara, que ele vestiu de forma a ficar com o corpo todo coberto.

O esquife começou a ser preenchido com um líquido transparente. Gonzalez mais uma vez pensou em seu pai, na sua cidade, e em Yanissy. Até o último momento ele aguardou que ela aparecesse para impedi-lo de seguir com seus planos. Como ela não veio, resignou-se em cumprir seu destino.

A esquife se recolheu automaticamente. Gonzalez fechou os olhos. Antes que seu corpo estivesse totalmente submerso no líquido, a máquina o fez adormecer.

 

 

jan 272017
 

 

mariola

 

 

Era véspera de Natal. O supermercado estava lotado e as filas eram longas e lentas. O jovem no caixa terminava de passar as compras de uma senhora de cabelos cor de beterraba, quando viu o homem que aguardava na fila:

– Senhor, me desculpe – disse o rapaz. Esta é a fila para os clientes preferenciais. Peço que procure outro caixa.

– Eu sei que esta é a fila do preferencial – respondeu o homem.

– Então, senhor… Este caixa só atende idosos, grávidas, pessoas com criança de colo ou portadores de necessidades especiais.

– Se é assim, estou na fila correta.

O caixa olhou bem para o homem, que aparentava não ter mais que trinta anos e não carregava criança alguma no colo. Pensou um pouco e disse, envergonhado:

– Perdão, senhor… Eu não tinha reparado que o senhor tem necessidades especiais.

– E quem disse que eu sou deficiente?

– Ora, o senhor é muito jovem para ser idoso e…

– Eu estou grávido! – disse o homem, interrompendo o caixa.

– Como?

– Eu estou grávido!

– Que absurdo!  – nesse momento, todos no supermercado acompanhavam o drama – O senhor queira já sair dessa fila antes que eu chame o segurança!

– Absurdo é a sua ignorância, rapaz! Exijo o gerente aqui agora!

O jovem apertou um botão ao lado da registradora e acendeu uma lâmpada sobre o número do caixa. Nesse momento, de um mastro até então despercebido desceu o gerente, como fosse um bombeiro chamado para uma emergência.

– Pois não, o que está acontecendo? – perguntou gerente ao rapaz no caixa.

– Este homem está na fila de atendimento preferencial e não quer sair pois diz que está grávido!

– Isso mesmo! Eu quero que meus direitos sejam respeitados!

O gerente ajeitou os óculos para mirar o homem da fila:

– Em tantos anos de supermercado, nunca vi algo assim! Isso é um absurdo!

O jovem caixa consentiu com a cabeça.

– Você não pode fazer isso! Será que você não consegue perceber que esse homem está grávido? – disse ao jovem, que quase caiu da cadeira. Virou então para o homem e continuou:

– O senhor me desculpe, prometo que isso nunca mais vai acontecer. Vou eu mesmo passar a sua compra. Você, rapaz, está dispensado.

O gerente tirou do bolso uma caixa com um botão, que ao ser apertado fez o rapaz ser ejetado da cadeira e jogado para fora do prédio. O gerente passou as compras do homem pelo leitor de código de barras e anunciou o valor total:

– Ficou em duzentos e quarenta reais

– Hmmm… posso pagar com uma mariola?

– Claro que não! Isso é um absurdo!

– Mas por quê?

– Ora, eu não tenho tantas jujubas pra te dar de troco!

***

Enquanto isso, um papagaio que a tudo presenciava virou-se para a madame ao lado e disse, consternado:

– Não acredito que perdi meu tempo prestando atenção nisso pra tudo acabar assim.

– Acabar como? – perguntou a madame.

– Assim.

 

nov 032016
 

 

mussarela

 

A lanchonete estava lotada, e por isso Bolívar se achou com sorte quando viu a mesa vaga no meio do apertado salão. Como os assentos eram todos muito próximos, ele pediu licença aos rapazes que estavam ao lado antes de se sentar, evidenciando seus modos de homem interiorano de meia idade.

Um desses moços vestia uma camisa verde, tinha barba rala e era baixo. O outro tinha pele bem clara, usava camisa polo azul e também tinha pouca barba. Ambos usavam botons de apoio à candidatura a um político engajado. E os dois estavam de mão dadas sobre a mesa.

Bolívar reparou nos rapazes, mas não se incomodou em dividir o espaço com o casal. Por estarem sentados tão próximos era possível ouvir que os moços conversavam normalmente sobre praia e faculdade, e Bolívar percebeu que não falavam nada de diferente de outros casais em um final de dia no Rio de Janeiro.

O garçom chegou rapidamente e anotou os pedidos de todos de uma só vez: dois pedaços de pizza de mussarela para os rapazes; um pedaço de pizza portuguesa para Bolívar. Os moços pediram suco, já o senhor, uma caneca grande de chopp.

Enquanto aguardava ser atendido, Bolívar refletiu como o mundo havia mudado nesses anos todos. Antigamente seria impossível que dois homens externassem ser um casal. E antes, certamente, ele teria se escandalizado com a situação. Mas agora ele estava na Cidade Maravilhosa e aprendia cada vez mais a conviver com a diversidade.

Para uma pessoa que sempre se definiu como um brucutu, não ter se importado com os rapazes gays era um grande avanço, e por isso Bolívar sentiu orgulho de si mesmo ao constatar seu progresso. Se até ele era capaz de respeitar as diferenças, quem sabe não haveria um momento em que todos pudessem ser mais tolerantes uns com os outros?

Enquanto divagava, os pedidos chegaram. Bolívar bebeu um longo gole de chopp e solicitou que o rapaz da camisa polo lhe passasse o azeite. Nesse momento, porém, o homem viu algo que o deixou transtornado e o fez levantar abruptamente. Enojado, disse rudemente para os rapazes:

– A minha tolerância tem limites!

O homem nascido no interior aprendera a respeitar as pessoas, por mais diferentes que fossem, mas ainda não estava pronto para presenciar a terrível imagem do rapaz da camisa verde colocar maionese e ketchup na pizza de mussarela.

Traumatizado, foi embora do Rio e nunca mais voltou.

 

 

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out 112016
 

 

dois

 

Você se lembra como foi seu dia 20 anos atrás?

Geralmente não sei nem o que fiz ontem, mas daquela sexta-feira, 11 de outubro, eu não me esqueço: estava almoçando no Restaurante Universitário quando me contaram sobre a morte do Renato Russo. Desisti então de passar a tarde na biblioteca da faculdade e resolvi voltar para a república, que ainda era aquela na rua Prudente de Moraes. Cheguei a tempo de ver o Jornal Hoje e as várias reportagens que seguiram pelo dia, inclusive a do jornal Aqui Agora, com um texto banal e desinformado narrado sobre as imagens do clipe de Strani Amore.

“DOIS” foi o primeiro disco que comprei na vida, com o dinheiro que ganhei do meu avô como presente de aniversário. “MÚSICA DE ACAMPAMENTO” comprei para dar de presente de Natal, mas ao chegar em casa resolvi que ficaria com o disco para mim. “AS QUATRO ESTAÇÕES” eu tinha em fita K7, copiado do LP que meu primo ganhou de amigo secreto  – naquela mesma oportunidade eu ganhei uma fita com os maiores sucessos da Joana. Sério. “V” tem “Metal Contra as Nuvens”, que embalou a primeira grande dor de cotovelo que tive na vida.  “O DESCOBRIMENTO DO BRASIL” eu comprei no Carrefour. Também em fita em tive o primeiro LP (“LEGIÃO URBANA”) e “A TEMPESTADE” foi o primeiro que adquiri em CD.

Apesar desses discos todos, eu não poderia ser chamado de um verdadeiro fã. Nunca tive um pôster na parede, e deixei de ir aos shows quando tive oportunidade por achá-los caros demais. Também não acompanhava tudo sobre a banda e não sabia que Renato estava tão doente, por isso a minha surpresa com a notícia da sua morte.

Eu já disse alguma vez que “Tempo Perdido” é a grande música da minha geração. Impossível ouvi-la sem lembrar de coisas, de pessoas e histórias que se perderam pelo… tempo. E muitas outras músicas da Legião ainda mantém o apelo original, mesmo com as patacoadas que os membros sobreviventes têm realizado.

Não é possível saber como estaria Renato Russo hoje. Seria o grande porta voz das novas gerações? Seria um velho chato e amargurado como o Lobão? Estaria fazendo shows em festivais agropecuários cantando as mesmas canções do passado? Seria coxinha? Ou mortadela? O que temos como fato é que a Legião se mantém relevante e atual, o que é instigante e assustador. É só ouvir “Perfeição” para nos darmos conta de como ainda é impossível responder que país é esse.

Apesar dos vinte anos, a máxima ainda vale: Urbana Legio Ominia Vincit.

 

 

 

set 212016
 

 

figurinhas-copa

 

A Santa Terezinha é uma rua que inicia plana, mas depois de uns trezentos metros começa a subir de um jeito que me cansa só de lembrar. A escola ficava ainda nessa parte baixa, de fronte a uma outra via em que até hoje às quintas acontece a feira livre do bairro. Todas as ruas próximas terminam em morros, e quase todos nós morávamos no alto, então ir para a aula era sempre mais fácil que voltar para casa, o que não me impedia de chegar sempre atrasado.

Mas eu morei próximo à escola apenas nos primeiros meses de aula. Em setembro, no feriado do dia 7, nos mudamos para a rua Santa Cecília, e embora estivesse mais longe nunca mais perdi a hora: o motorista da Kombi que me levava era nosso vizinho e eu era o primeiro a embarcar e o último voltar para casa.

Era 1982. Ano da Guerra das Malvinas, da Copa da Espanha e da primeira série C com a professora Vera, no Centro Educacional Sesi nº 160.

Antes das aulas, nos dias mais quentes, íamos buscar água que saía de uma bica incrustrada no quintal de um dos vizinhos da escola. A água era fresca e cristalina, de um jeito que hoje é impossível conseguir em pleno centro da cidade.  Com as garrafinhas das lancheiras abastecidas, aguardávamos o sinal para fazer fila e entrar na sala de aula trocando figurinhas dos álbuns do chiclete Ping Pong. As coleções das Copas de 82 e 86 e da Fórmula Um faziam tanto sucesso com a molecada quanto com os dentistas.

O pátio da escola era um pouco maior do que uma quadra de vôlei, único esporte que se praticava nas aulas de educação física (também havia o mini-vôlei, que os meninos jogavam com bolinhas de papel ensacadas em embalagens de pipoca, numa rede improvisada entre os mastros das bandeiras, mas isso era atividade extracurricular, assim como o pega-pega, o cinco-corta, a competição de aviões de papel, etc.). O chão da quadra era de cimento crespo, o que proporcionava maior emoção a cada tombo, mas isso não nos impedia de correr e pular o tempo todo.

Eu e alguns outros garotos aprendemos a jogar vôlei de verdade no Esporte Clube Elvira, e isso favoreceu o crescimento de uma rivalidade com o pessoal mais velho, que se formaria em 1988. Tenho certeza que os maiores jogos do esporte mundial foram travados naquela quadra cimentada do Sesi, pois já disse o poeta que nenhuma partida foi mais bela do que aquelas que ocorreram na minha aldeia (ou algo assim).

As meninas sempre foram mais maduras que os meninos, tanto emocional quanto fisicamente. Isso promoveu alguns desencontros amorosos nunca remediados: enquanto elas se espelhavam na Madonna e suas polainas e começavam a “gostar” dos garotos, nós só queríamos ter um carro igual a Super Máquina e jogar Atari para chegar ao fim do River Raid. Quando então passamos a gostar delas, elas só queriam saber dos caras mais velhos, e assim rivalidade cresceu para além das quadras, chegando aos bailinhos que tinham dança da vassoura e ponche de frutas.

Antes da hora do recreio, saíamos da aula para a merenda, trazida da Cozinha Piloto e servida pela Dona Isabel e pela Dona Maria em pratos de alumínio e canecas de plástico. Achocolatado, sopa de macarrão, sopa de macarrão com caldo de feijão, canjica, pão com salsicha. O cardápio era limitado e talvez sem grande valor nutricional, mas não éramos exigentes.

A escola tinha apenas 8 salas de aula, a cantina, a direção, os banheiros e uma oficina, aonde éramos introduzidos aos ofícios da cerâmica e da madeira. Era um prédio velho e todos os móveis escolares também eram antigos. Durante vários anos estudei em grandes carteiras de madeira e ferro, aonde sentávamos em duplas, e o cheiro daquelas salas ainda sobrevive em um canto qualquer da memória.

A memória, aliás, me prega peças. Recordo de conversar na porta da oficina com o Robson sobre Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, mas essa música só foi lançada em 1991, depois que eu já tinha perdido o contato com esse amigo que nunca mais vi.

Pouco depois que me formei na oitava série, em 1989, o Sesi construiu instalações novas com salas e móveis modernos, além de quadras de verdade, piscina e campos de futebol. O prédio em que estudei hoje abriga uma outra escola, mas aquele mundo ficou lá atrás, num outro século, numa vida tão diferente que só existe em fotos de baixa resolução e em lembranças embaralhadas pelo tempo.

 

sesi-14

 

Centro Educacional SESI nº 160

Jacareí, 21 de setembro de 2016

Hoje o dia está nublado.

 

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Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (I)

Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (II)