jul 122016
 

 

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Desde que nasceu, existiam duas certezas na vida de Vitorino: a morte, que a todos alcança; e o trabalho na oficina mecânica, tradição familiar que os Calibri diziam ter começado antes mesmo da invenção do automóvel.

Tradições eram coisas sagradas, não só para a família de Vitorino, mas para todos na pacata cidade de Bramantoque. Os cidadãos cuidavam de seus costumes com muito orgulho e dedicação, e a solução dada à celeuma sobre o nome do município ilustra bem isso.

Como todos os munícipes sabiam, Bramantoque era uma palavra tupi-guarani que significava “pedra branca”. Certa feita, porém, um professor atestou, depois de muito pesquisar, que aquela não era uma palavra indígena, e que não tinha significado nenhum. Chocada com a revelação, a população se reuniu com os vereadores, os vereadores se reuniram com o prefeito, e o prefeito procurou pelo professor para então expulsá-lo da cidade e levar consigo seus livros, artigos, pesquisas e tudo mais para o amãtiti que o parta.

Depois que o pobre estudioso foi embora ninguém mais tocou no assunto, e na praça central foi instalada com muita pompa uma estátua de um índio sentado em cima de uma pedra. Uma pedra branca, claro.

Vitorino passava por aquele monumento todos os dias, e sempre que via aquele índio empacado lamentava seu próprio destino. Sentia que sua vida era como a pedra, que estava incrustada naquele lugar sob o peso de outras vidas.

O jovem não queria ser mecânico como todos da família Calibri. Ele, na verdade, queria ser estilista.

Vitorino gostava de moda, e sonhava trabalhar com alta costura, em meio a roupas, modelos e fotógrafos, dando vida aos vestidos que à noite desenhava escondido em seu quarto. Certamente o rapaz era o único naquela cidade que sabia o que significava prêt-à-porter, e tinha certeza que qualquer outro bramantoquense diria que se trata de outra palavra indígena.

Nesse momento você deve estar pensando “hmm… então Vitorino era…” Pois te digo uma coisa: não era. Ou talvez fosse, não sei. Na verdade, isso não tem importância nenhuma. O problema não estava no que ele era, mas sim no que ele gostaria ser.

Foi numa noite de verão, após o jantar, que Vitorino resolveu contar à família que não queria mais trabalhar na oficina, e que pretendia estudar na capital. Ninguém retrucou, e o silêncio que se fez à mesa foi pior do que se seu pai tivesse lhe dado um tapa. Depois que foram deitar o rapaz demorou a conseguir dormir, pois era incomodado pela sua mãe soluçando em prantos no quarto ao lado.

Assim que acordou no dia seguinte, recebeu a visita do pastor da cidade, que fora convidado por seu pai para o café da manhã.

Após o almoço, veio o padre, chamado por sua mãe para o café da tarde.

À noite, o próprio prefeito veio jantar.

Todos os convidados falaram sobre tradição e família. Todos recitaram sobre o destino e sobre a vontade de Deus. Todos exaltaram o valor dos costumes e a importância da profissão de mecânico. Ninguém perguntou o quê Vitorino desejava.

Exposto à tanta pressão, Vitorino cedeu. Esqueceu seus planos e se rendeu ao que todos esperavam dele. Nunca se tornou um bom mecânico, mas para o pai bastava que ele estivesse na oficina todos os dias, como estiveram o avô e os homens que o antecederam.

Sim, esta não é uma história de superação e de final feliz, e eu sei que é chato saber sobre alguém que não vive seus próprios sonhos.

Talvez o amargor desta narrativa sem graça se torne menor se eu te contar que, às vezes, a estátua do índio amanhece coberta por vestidos coloridos feitos à mão, e que até hoje ninguém em Bramantoque descobriu o autor daquelas peças de tanto bom gosto.

 

maio 132016
 

 

 

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– E aí, diz como é ser presidente!

– Poxa, manos, vocês não acreditam na sensação!

– Eu imagino como é. Imagino muito, imagino o tempo todo…

– Calma, ministro! Contenha-se! E limpe essa baba que está escorrendo pelo canto da boca!

– Eu sinto muito que vocês não tenham conseguido…

–  Sente nada, se eu fosse eleito você não estaria aí!

– … mas você são jovens e vão ter outras oportunidades. Eu não, minha vez é agora, afinal, estou inelegível.

– Ele é jovem, eu não sou jovem. Tá certo que enquanto eu me mantiver longe da luz do sol e de estacas de madeira terei vida eterna, mas isso não vem ao caso agora. Pensem bem, é muito louco isso, não? Eu e o playboy tentamos ser presidentes e não conseguimos por causa da eleição, e justo você que não foi votado e está inelegível, assumiu o cargo!

– Viva o Brasil!

– Viva o Brasil!

– Viva o Brasil!

– Na verdade, gótico presidente, você teve é um golpe de sorte!

– Chiiiii, não diga essa palavra!

– Desculpe, desculpe. Você teve sorte. Não teve golpe, não teve golpe.

– HAHAHA!

– HAHAHA!

– HAHAHA!

– Hmmm… Eu estou sentido um cheiro estranho, vocês não estão?

– Ora, diga você, que é o especialista.

– Cheiro… de enxofre!

– Ah, é ele!

– Não, ele!

– Não se acanhem, meus caros confrades. Esse cheiro pútrido pode ser de qualquer um desta sala.

– Mas presidente, como ministro que agora sou, tenho o dever de te informar que alguns dos meus colegas recém empossados estão envolvidos com a Lava Jato, e por isso pode haver acusação de obstrução à Justiça por eles terem conseguido foro privilegiado.

– Não se preocupe, meu nobre Nosferatu, nenhum deles é o sapo barbudo, então a ninguém vai fazer questão de apurar isso.

– E, se tiver algum problema, meu caro Judas, digo, meu caro presidente, deixa comigo que eu tenho um amigão na corte. Em menos de 24 horas o Gil muda de ideia e manda arquivar o seu b.o.

– Em 24 horas? Depois dizem que a Justiça no Brasil é lenta!

– Viva o Brasil!

– Viva o Brasil!

– Viva o Brasil!

– Agora me conte: como estão as coisas lá em Belo Horizonte?

– Em Belo Horizonte eu não sei não, mas se quiser saber sobre o Leblon, posso te dar altas dicas.

– HAHAHAHAHA HAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHA! Desculpem, desculpem. Minha risada soa vilanesca, mas sou uma pessoa de bens, digo, do bem. As oportunidades da noite carioca não me interessam, pois sou um homem fiel!

– Hum, hum!

– Sei, sei…

– Bom, presidente, eu e o senador balada vamos deixar o senhor à vontade para continuar tramando, digo, tratando com os demais parlamentares. Eu sei que o senhor precisa acertar os ponteiros da tungada na previdência, no achaque à CLT e na volta da CPMF, mas pode deixar que eu mesmo tratarei do pré-sal com os gringos.

– Perdão, presidente, mas o ministro chupa-cabra falou da CPMF? Nós não éramos contra até a semana passada?

– Nosso país é muito grande, muito dinâmico, senador pão-de-queijo. Uma hora você é contra alguma coisa, em outra você é favor. Uma hora você é presidente, não outra você não é mais. Você defende a democracia num dia, e no outro joga no lixo o voto de milhões de brasileiros… E sabe o que é o melhor disso tudo?

– Eu sei: o povo aceita os fatos e acha tudo normal, pois a Veja, a Globo e toda a grande imprensa assim disseram que é.

– Sem dúvida, é um país sem igual.

– Viva o Brasil!

– Viva o Brasil!

– Viva o Brasil!

 

 

abr 252016
 

 

 

Quando Michael Jackson morreu eu enviei um email para muitos amigos, para falar do tempo que passou desde que o Rei do Pop dançou o moonwalk e de como nos transformamos nesse período, e essa mensagem acabou de certa forma gerando a ideia de ter um blog. Nunca fui fã do Michael, mas ele sempre esteve presente em nossas vidas, mesmo que não percebêssemos.

A morte de Prince igualmente entristece quem viveu os anos 80. Também não era fã d’O Artista, mas When Doves Cry era onipresente nos programas de videoclipes de TV, Kiss tocava na New Wave e em todas as danceterias do mundo e não havia festa sem Purple Rain para fazer os casaizinhos dançarem. Isso sem falar de Nothing Compares 2 U, que fez sucesso com Sinead O’Connor, mas foi composta pelo Prince.

Talvez os jovens não tenham se dado conta de quem ele foi, mas Prince fazia parte do grande triunvirato da música pop, juntamente com Madonna e Michael Jackson. Foram as escolhas extravagantes que fez na carreira que acabaram por afastá-lo das novas gerações, mas para quem quiser saber sobre sua história e sua relevância sugiro este texto,  que é melhor do que qualquer coisa que eu possa escrever.

O que me importa é que outro representante da minha infância/adolescência se foi. E mesmo que eu não tenha nenhum disco do Prince em casa, acho que, de alguma forma, sou quem sou porque um dia ouvi Batdance e festejei como se fosse 1999.

 

***

 

Bruce Springsteen homenageou Prince cantando Purple Rain. Ficou foda:

 

 

Honey, I know, I know
I know times are changing
It’s time we all reach out
For something new, that means you too
You say you want a leader
But you can’t seem to make up your mind
I think you better close it
And let me guide you to the purple rain

 

 

mar 092016
 

 

 

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– Oi, tem alguém aí? – disse a mulher em meio à escuridão.

A luz de uma vela se acendeu, revelando a face de um homem com o dedo indicador parado sobre a boca, invocando silêncio.

– Moça – falou baixinho o homem – silêncio, senão você vai acordá-lo!

– Me desculpe – disse ela no mesmo tom – Eu vim para…

– Eu sei para o quê você veio. Venha, fique à vontade, está meio bagunçado aqui dentro, mas você sabe como ele é, né?

Ela se aproximou do homem e ambos seguiram pelo pequeno cômodo. No chão algumas caixas estavam jogadas em meio a fotos, brinquedos e peças de roupas fora de moda. No canto de uma parede havia uma caixa-arquivo de papelão ao lado de um grande armário de aço.

– O que tem ali dentro?

– Ali, na caixa, tudo o que ele sabe.

– E no armário?

– Tudo o que ele pensa que sabe.

Ela riu e apontou para uma máquina.

– Aquilo é uma picotadora. É usado pras coisas que ele tenta esquecer, mas isso quase nunca funciona.

Ela tentou ver o que estava próximo à picotadora, mas o homem mudou a vela de direção, iluminando outro ponto da sala.

– O que tem naquela caixa de papelão?

– Aqui ficam as recordações mais importantes. As da infância, nesse rolo de filme Super 8. A adolescência está naquelas duas fitas VHS. E naqueles disquetes, a vida adulta.

– Disquetes?

– Pois é. Sofremos com a falta de espaço. Eu deleto um monte de coisas pra colocar outras coisas novas. Acabei de apagar o arquivo das refeições de ontem, então ele literalmente não sabe mais o que comeu no almoço.

Aos poucos, bem baixinho, o som de um alarme começou a reverberar dentro do cômodo.

– Moça, está chegando a hora. O passeio acabou.

Ela olhou em volta, procurando, mas ficou frustrada por não encontrar nenhuma referência. Não havia nada que lembrasse dela. Já estava pronta para abrir os olhos quando percebeu uma bela caixa, toda trabalhada em madeira, colocada numa prateleira na parede.

– O que tem ali? – perguntou enquanto seu corpo se afastava do local.

– Ah, você sabe – disse o homem sorrindo, antes de desaparecer na luz do dia.

 

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fev 032016
 

 

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Ebenélcio Scrote acordou no meio da madrugada e procurou pelo telefone celular para saber as horas. Ficou surpreso ao ver que o aparelho marcava 01:00, pois quando tinha ido se deitar já se passavam das três da manhã. Era impossível que tivesse dormido até o começo da tarde, ou que tivesse atravessado um dia todo dormindo, então se levantou e foi olhar pela janela, acreditando que seu telefone tivesse algum defeito. Antes mexer na cortina, porém, viu um vulto parado próximo à porta:

– Quem é você?

– Eu sou Balaco Baco.

– Quem?

– Eu sou um dos fantasmas dos carnavais passados.

Enquanto o espectro falava, lantejoulas caíam pelo chão. Ebenélcio manteve-se em silêncio, descrente da cena que se apresentava.

– Você já foi animado, Ebenélcio. Você se divertia no carnaval, aproveitava a folia, agora só quer saber de cama e computador. Venha comigo visitar o seu tempo de farra para reviver aquela pessoa alegre que havia dentro de você.

Mesmo ainda sem acreditar no que acontecia, Ebenélcio deu a mão e, no mesmo instante, eles se encontravam no meio de um salão enfeitado com serpentinas e com o chão coberto de confetes. Ebenélcio viu um adolescente usando camiseta branca, uma grande fralda de pano sobre o calção, com uma chupeta pendurada no pescoço e carregando uma mamadeira, que era sorvida continuamente pelo jovem.

– Aquele bebezão pulando como um louco é você, Ebenélcio, se lembra disso?

– Sim!

– O que tinha naquela mamadeira?

– Pinga com limão.

– Você não era muito jovem para beber?

– Sim, aquela foi a primeira vez que tomei um porre. Eu não me lembro direito do que aconteceu, só me recordo que beijei uma linda mulher e que no outro dia eu tinha comigo uma flor que ele me deu!

– E quem é aquela moça vestida de diaba que está conversando agora com você?

– Ah, aquela é a Blonda. Ela não está vestida de diaba não, ela está sem fantasia nenhuma, na verdade. Essa cara de exu era dela mesma, coitada.

– Você bebeu demais naquela noite! Veja, você está agora brigando com a menina! Não, não! Vocês não estão brigando, vocês estão se agarrando… Nossa! Que beijo! Que amasso!

– Isso está errado, não foi assim! Eu fiquei com uma linda mulher naquela noite! Ela até me deu uma flor…

– Seria aquela flor de jaca que ela tirou da lapela e está te entregando agora?

– Meu Deus, a Blonda não! A BLONDA NÃO!

***

Ebenélcio acordou assustado, com o coração batendo em ritmo acelerado, e olhou para o celular que marcava 02:00. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo percebeu que no quarto havia mais alguém.

– Boa noite, Ebenélcio. Eu sou Teleco Teco, outro fantasma dos carnavais passados.

– Estou sonhando dentro de um sonho? O que está acontecendo?

– Está acontecendo que você tem que recuperar o espírito da alegria do carnaval, e por isso vou te levar a outro momento em que você foi feliz no meio da folia.

– Bom, pior que o último não pode ser…

O espírito, que usava uma máscara de pierrot, deu a mão a Ebenélcio e imediatamente ambos se encontravam no meio de uma rua de pedras, muito estreita. Era possível ouvir uma marchinha carnavalesca, mas o som vinha de longe. Já amanhecia, os foliões já tinham passado, e não havia mais ninguém nas proximidades.

– Cadê você, Ebenélcio? No meu roteiro você tinha aproveitado a noite com uma tal de Natacha.

– Esse foi meu carnaval em Ouro Preto… Eu me lembro pouco desses dias, mas sei que passei por estas ruas… Tinha uma barbearia e… Olha, veja lá, estou ali na esquina…

– Aonde?

– No chão…

– Aquele esparramado na sarjeta é você?

– Sim…

– O que é aquilo que você está abraçando? Ah, é uma garrafa de vodca! Vodca Natasha…  Então “Natacha” é “Natasha”, que é uma marca da bebida… Que coisa, Ebenélcio… Mas aqui nas anotações consta que você beijou alguém!

– Eu me lembro dos lábios quentes tocando os meus!

– Lábios ou focinho? Pois veja, tem um cachorro lambendo sua boca agora..

– Meu Deus, um cachorro não! CACHORRO NÃO!

***

Ebenélcio quase caiu da cama ao acordar. Suava tanto que seu pijama estava todo molhado. Uma brisa fria foi sentida, e ele já sabia o que isso significava. O relógio marcava 3:00.

– Boa noite, Ebenélcio. Eu sou Ziri Guidum, um…

– … dos fantasmas dos carnavais passados – completou o homem – Já sei o quem você é e o que veio fazer aqui.

– Venha comigo então, Ebenélcio. Vou levar você para a lembrança do carnaval mais feliz da sua vida.

Dessa vez o homem relutou. As duas lembranças anteriores não foram nada boas, e ele teve medo do que poderia encontrar no seu passado. Percebendo isso o fantasma assobiou como uma cuíca e disse: “Vamos ao Rio de Janeiro”. Ebenélcio se animou ao ouvir o nome da cidade maravilhosa e apertou a mão do espírito, fazendo surgir ao redor dos dois uma quadra de escola de samba. O som da bateria era alto, belas mulheres sambavam e havia alegria por todos os lados.

– Esse carnaval foi ótimo – disse Ebenélcio, aos gritos – Eu ia curtir o samba em outra escola, mas um funcionário do hotel me deu a dica dessa quadra. À noite conheci uma mulata maravilhosa, vestida de fantasia de Mulher Gato, e nós tivemos momentos muito quentes encostados no muro do quarteirão de baixo!

– Estou vendo… Vocês estavam bem animados…

– Foi uma noite maravilhosa, inesquecível. Durante o resto do carnaval, e nas outras vezes que fui ao Rio, procurei por ela mas nunca consegui achá-la. Nosso encontro foi breve, mas muito intenso… Não consumamos o ato, se é que você me entende, mas aquela Mulher Gato jamais saiu da minha cabeça.

– Entendi sim o que você disse. Não compreendi o que ela está fazendo agora… Vocês se despediram, ela foi embora, mas parou pra fazer xixi, é isso?

– Não, não é isso não. Ela está de pé… – disse um confuso Ebenélcio.

– A sua Mulher Gato deixou cair algo, vejamos: hmmm, é um crachá do Hotel F. Caneca.

– Esse é o hotel em que me hospedei e… Ah, não! O FUNCIONÁRIO NÃO! O FUNCIONÁRIO NÃO!

***

Ebenélcio estava no chão. Tinha caído da cama e acordou desesperado. O celular marcava 4:00, e foi com medo e que ele se virou para a porta do quarto, aonde estavam os três fantasmas que o visitaram antes.

– Não sei que sonho maluco é isso, mas saiam daqui, saiam da minha cabeça! Vocês são um sonho apenas!

– Errado, Ebenélcio – disse Zirigui Dum

– Não somos um sonho – cuicou Balaco Baco.

– Nós somos reais – repicou Teleco Teco – Todavia, pode ficar tranquilo. Nós vamos embora e nunca mais vamos voltar. É melhor você esquecer do carnaval e ficar em casa mesmo, pois até Momo acha que você já fez besteira demais nessa vida.

***

Até hoje Ebenélcio não sabe se foi um sonho ou se foi mesmo visitado por fantasmas. Ele passa seus carnavais em casa, isolado da folia e dos amigos. Às vezes sente falta da animação e senta-se, melancólico em frente aos desfiles na TV, suspirando com um cartão de um hotel carioca em suas mãos.

 

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jan 262016
 

 

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“Tempo é relativo”, me diz o Óbvio, sentado ao meu lado enquanto escrevo estas linhas.

Já se passaram muitos dias desde a última postagem e ele está aflito, esperando ser alimentado. Tenho me contido durante esse período para não me render ao seu chamado, mesmo que seja tentador e às vezes coberto de razão.

Em relação à relatividade do tempo, por exemplo, ele está certo: ontem fez 21 anos desde aquele show do Lulu Santos do Ibirapuera mas parece que foi… ontem. Minhas férias inteiras duraram menos que as horas que sentei em frente ao computador depois que voltei ao trabalho.

Mas tenho lutado para não me render ao Óbvio e seu sorriso vazio de satisfação. Por mais que ele continue a me espreitar a cada bate-papo, a cada mensagem trocada, a cada olhada no Facebook, aguardando pacientemente minha resposta a um comentário qualquer.

Essa minha resistência, todavia, tem causado o hiato nas postagens e algum ressentimento. O dia mais emblemático foi quando David Bowie morreu.

Assim que soube da morte do cantor o Óbvio ficou ululante. Abriu o notebook e leu cada comentário sobre a genialidade artista rindo de si mesmo, enquanto aguardava a minha participação no rol de homenagens sem fim. Ele sabia que sou fã do Bowie e que isso certamente renderia um post consagrador a ele (consagrador ao Óbvio, quero dizer).

Mas minha decisão de não escrever por entender que não haveria algo original para postar foi um golpe duro, que o deixou decepcionado comigo. Depois de tantos anos enriquecendo suas fileiras, o Óbvio se sentiu traído pela minha atitude.

Aos poucos, porém, vejo que ele está se recobrando e se sentindo mais forte, mais confiante. Ambos sabemos o porquê. É certo que, por mais que eu tente, cedo ou tarde não resistirei aos seus apelos e voltarei a colaborar com ele.

Quando digo “com ele” me refiro ao Óbvio, claro.

 

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